domingo, 9 de outubro de 2011

História, Religião, Cultura, Guerra e Paz.

Para que serve o conhecimento? – isto é, para que serve nossa racionalidade? Por que ainda hoje, pomos em risco nossa vidas, a vida de muitos, a vida de todos, produzindo a guerra? Por que o animal racional é irresponsável para com sua própria existência e intolerante para com seu semelhante, se a razão (e não a loucura) nos aconselha caminhos de diplomacia e de compreensão mútua, e deveria servir de fundamentos para nossas relações?
Antigamente tínhamos cada país separado e organizado dentro do seu território com sua cultura própria, seu governo e todas as suas idiossincrasias. Com o passar dos anos muitos impérios expandiram-se e criaram guerras com outros reinos e comunidades para possuírem escravos para novas guerras, para aumentar seu poder, sua riqueza, sua influência no Mundo etc. Foi assim com os mongóis, com os gregos, com os persas e principalmente com os romanos. Nenhum país dominou tantos povos diferentes e por tão longo tempo como o Império Romano, muitos imperadores, reis, tiranos, governadores que estiveram à frente de Roma durante seus 1000 anos de glória conquistaram países diferentes de formas diferentes, muitas vezes dominando esses povos e oprimindo suas culturas, impondo o modo romano de pensar, ensinando o latim, sua religião etc. Poucos imperadores como Alexandre, o Grande e Marco Aurélio conquistaram povos, mas permitiam sua cultura, seus hábitos, mesclando-as com os costumes romanos, porém submetidos e dominados por Roma.
Ao longo da história vemos o surgimento de vários religiões, seitas, doutrinas, nas diversas localidades do planeta e das mais diversas formas de culto, temos religiões antigas como o Islamismo, o Zoroatrismo, o Budismo, o Hinduismo, o Cristianismo dentre outras e algumas novas como o Cardecismo, várias religiões neopentecostais, o Candomblé etc. As religiões ditam todas as regras que as pessoas devem seguir em suas vidas, seus dogmas são fechados e não há tolerância quanto a costumes diferentes daqueles, em cada religião há uma forma de castigo ou punição para um ato que não seja permitido dentro de sua doutrina, alguns ocorrem em vida, e outros no além, após a morte. Seguidamente da religião e de aspectos históricos, geográficos, políticos etc temos outras formas que divergem entre as nações como hábitos alimentares, instituições e organização política, modo de vida, grau de desenvolvimento tecnológico etc. Cada um destes pequenos detalhes fazem com que cada sociedade, e não necessariamente cada nação tenha uma cultura diferente, temos, como no Brasil, por exemplo, diversas culturas e tradições diferentes, até mesmo opostas dentro do mesmo território, existem vários “Brasís” dentro de um Brasil unificado pelos limites territoriais e governamentais.
Em cada um dos mínimos detalhes surgem divergências entre as comunidades, pois cada qual defende o que lhe pertence como superior ao vizinho ou ao diferente, cada povo quer se mostrar superior e impor de algum modo seus hábitos e sua cultura aos demais, algumas vezes de modo pacifico e na grande maioria através de guerras e sangue.
A partir do fim da segunda guerra mundial temos o mundo separado em dois blocos governamentais, os capitalistas e os socialistas, ao longo dos anos, até 1989 com a ruptura do murro de Berlim e com dissolução da URSS em 1991 o mundo passa a se unificar novamente e poucos são os países que mantêm governos e economias socialistas, muitos deles sucumbem e são feitas uma série de reformas políticas e econômicas e mudam sua política interna e externa, alguns mantêm-se fechados ao mundo, como Cuba e a China, este que no decorrer dos anos foi abrindo sua economia externa e se tornou uma das maiores do mundo, porém internamente ainda permanece um regime socialista opressor aos cidadãos.
Cada povo tem sua história, escrita com muitas guerras e sangue, e o caminho traçado por cada um fez surgir alguns traços nacionais que correspondem às características dos países, e suas alianças com os demais, alguns ódios reprimidos como Brasil e Argentina ou Inglaterra e França, sentimentos ligados a história, a rivalidade destes países ao longo da história, e por mais que haja paz entre estas nações, cada pessoa tem um sentimento com relação a isso e na maioria das vezes faz o que pode para mostrar-se superior ao “inimigo”.
Assim, temos vários fatores que marcam a história dos países e suas divergências, e cada peculiaridade é um sinal de rivalidade, confronto, de dominação e poder. Com a globalização temos a abertura de quase todos os países para o Mundo, vemos os povos e as culturas misturaram-se como nunca antes vista, talvez a forma que mais se aproximou foi a helenização do mundo antigo dominado pela Roma de Alexandre e Marco Aurélio. As pessoas podem ir para qualquer lugar do mundo e aprender qualquer cultura, muitas vezes um brasileiro é grande especialista em cultura nórdica, por exemplo, mesmo sem nunca ter ido até aqueles países, ou convivido por um longo tempo lá. O mundo está aberto a qualquer um e aos poucos as culturas e as raças vão se misturando.
Ainda que estamos em meio a uma série de guerras e revoltas internas ou entre nações, aos poucos as individualidades se diluem em meio a imensa possibilidade que temos à frente, não mais somos obrigados a conviver em determinado lugar, cultura, política etc, temos liberdade absoluta para viver no mundo, basta-nos dinheiro e coragem para nos aventurarmos num mundo totalmente desconhecido.
Analisando os rumos históricos e tentando traçar um futuro para os países analisando o passado, vejo em cada um destes aspectos como um sinal de uma pangéia cultural futura, onde o mundo inteiro estará unido, não fisicamente, mas psicologicamente, teremos a possibilidade de excluirmos tudo o que há de negativo, de retrógado e construirmos uma cultura mundial.
Hoje em dia temos um grande número de pessoas, mais do que no passado, de ateus, de descrentes, de céticos, de religiões fundamentadas no homem, como o Satanismo de Lavey. Religiões aos poucos vão mudando algumas crenças, alguns dogmas de acordo com o que temos atualmente, não podemos nos basear em dogmas escritos há milênios ou séculos atrás, os mundo mudou, as pessoas mudaram, nada retornará ao que já foi, para o bem ou para o mal o mundo é sofre constantemente de mudança e evolução. E o primeiro passo para a paz mundial é a dissolução de todas as religiões, numa época onde não existirá mais dogmas, mais religiões, onde todos serão livres e sua conduta basear-se apenas numa justiça ética e racional todos serão iguais uns aos outros, do ponto de vista ético-moral, e um não quererá (até por não ter como) sobrepor-se ao outro pelas suas crenças.
Aos poucos as raças se igualarão, mesmo que todas as pessoas não sejam necessariamente iguais, em algumas décadas ou séculos estaremos todos tão parecidos que não haverá motivos para o ódio por outras raças. E da mesma forma um dia teremos um modelo governamental, que ao longo dos anos se mostrará mais útil a todos, seja ele democrata, tirano, parlamentar, enfim, qualquer que seja, será o único a ser adotado entre as nações.
A música um dia chegará ao fim de suas possibilidades, um dia todas as combinações musicais já terão sido formadas, não haverá possibilidade de novas construções e a educação musical será reformulada, teremos a união de várias tendências e apenas alguns poucos estilos sobreviverão. A música retornará a ter um caráter ritualístico, e musicas como o funk, por exemplo (dentre outros estilos), de exaltação sexual desmedida e o desprezo pela mulher não existirão mais, músicas regionais também sumirão, pois não haverá sazonalidades, todos serão integrantes de uma nação global. Nas primeiras décadas desta mudança ainda haverá aqueles que ouvirão estes estilos secundários, porém em algumas décadas, tudo estará unificado, é o processo natural de evolução, o obsoleto ficará na história. Da mesma forma ocorrerá com a literatura e o cinema não haverá mais histórias de cowboys do faroeste americano ou dos índios tupi-guarani do Brasil ou dos aborígenes australianos, as pessoas não se reconhecerão mais nestes estereótipos, tudo deverá ser global para ser compreendido e aceito.
No dia em que não existir mais diversas religiões, culturas, raças e estilos o mundo estará completamente unificado social, econômico e político. Neste dia teremos ainda dois possíveis caminhos: ou uns lutarão contra os outros por riquezas e poder ou todos poderão construir um caminho para o além de si, talvez neste estágio o homem e a terra estarão preparados para o além-do-homem, para ir além das peculiaridades do hoje e formar um reino de humanos-hiperbóreos. Hoje vemos o primeiro passo para esta mudança com a globalização, o acesso a qualquer cultura e povo, e contato fácil com qualquer pessoa ao redor do mundo, facilitado pelas redes sociais e grandes sites mundiais como o Wikipédia, a primeira forma de união por um mundo melhor em escala global, onde todos colaboram com o conhecimento, que hoje, está ao alcance de todos. Vivemos na época da colaboração e para podermos construir um mundo pacífico e unido será através da colaboração de todos, não só na disseminação da cultura, mas na sua aplicação, na ajuda individual que cada um tem por obrigação de não só receber ou passar tal conhecimento, mas colaborar com o surgimento de grandes idéias e de coisas que beneficiem a todos, quanto a consciência do eu passar para a consciência coletiva, todos ajudarão a construir as pontes que levarão o homem ao além-do-homem e assim vivermos como hiperbóreos, longe das guerras, do mal, da cobiça e do ódio.
[Texto escrito em Itanhaem, em 23/4/2011, entre 13:03 e 14:03]

sábado, 4 de junho de 2011

Um dia você aprende que... (William Shakespeare)

Depois de algum tempo você aprende a diferença,
a sutil diferença, entre dar a mão e acorrentar uma alma.

E você aprende que amar não significa apoiar-se,
e que companhia nem sempre significa segurança.

E começa a aprender que beijos não são contratos
e presentes não são promessas.

E começa a aceitar suas derrotas com a cabeça erguida
e olhos adiante, com a graça de um adulto
e não com a tristeza de uma criança.

E aprende a construir todas as suas estradas no hoje,
porque o terreno do amanhã é incerto demais para os planos,
e o futuro tem o costume de cair em meio ao vão.

Depois de um tempo você aprende que o sol queima
se ficar exposto por muito tempo. •.
E aprende que não importa o quanto você se importe,
algumas pessoas simplesmente não se importam...

E aceita que não importa quão boa seja uma pessoa,
ela vai feri-lo de vez em quando e você precisa perdoá-la por isso.

Aprende que falar pode aliviar dores emocionais.

Descobre que se leva anos para se construir confiança
e apenas segundos para destruí-la,
e que você pode fazer coisas em um instante,
das quais se arrependerá pelo resto da vida.

Aprende que verdadeiras amizades continuam a crescer
mesmo a longas distâncias.

E o que importa não é o que você tem na vida,
mas quem você é na vida.

E que bons amigos são a família que nos permitiram escolher.
Aprende que não temos que mudar de amigos
se compreendemos que os amigos mudam,
percebe que seu melhor amigo e você podem fazer qualquer coisa,
ou nada, e terem bons momentos juntos.

Descobre que as pessoas com quem você mais se importa na vida
são tomadas de você muito depressa,
por isso sempre devemos deixar as pessoas que amamos
com palavras amorosas, pode ser a última vez que as vejamos.

Aprende que as circunstâncias e os ambientes tem influência sobre nós,
mas nós somos responsáveis por nós mesmos.

Começa a aprender que não se deve comparar com os outros,
mas com o melhor que você mesmo pode ser.

Descobre que se leva muito tempo para se tornar a pessoa que quer ser,
e que o tempo é curto.

Aprende que não importa onde já chegou, mas onde está indo,
mas se você não sabe para onde está indo,
qualquer lugar serve.

Aprende que, ou você controla seus atos ou eles o controlarão,
e que ser flexível não significa ser fraco ou não ter personalidade,
pois não importa quão delicada e frágil seja uma situação,
sempre existem dois lados.

Aprende que heróis são pessoas que fizeram o que era necessário fazer,
enfrentando as conseqüências.

Aprende que paciência requer muita prática.

Descobre que algumas vezes a pessoa que você espera que o chute
quando você cai é uma das poucas que o ajudam a levantar-se.

Aprende que maturidade tem mais a ver com os tipos de experiência
que se teve e o que você aprendeu com elas
do que com quantos aniversários você celebrou.

Aprende que há mais dos seus pais em você do que você supunha.

Aprende que nunca se deve dizer a uma criança que sonhos são bobagens,
poucas coisas são tão humilhantes e seria uma tragédia
se ela acreditasse nisso.

Aprende que quando está com raiva tem o direito de estar com raiva,
mas isso não lhe dá o direito de ser cruel.

Descobre que só porque alguém não o ama do jeito que você quer
que ame, não significa que esse alguém não o ama,
pois existem pessoas que nos amam,
mas simplesmente não sabem como demonstrar isso.

Aprende que nem sempre é suficiente ser perdoado por alguém,
algumas vezes você tem que aprender a perdoar-se a si mesmo.

Aprende que com a mesma severidade com que julga,
você será em algum momento condenado.

Aprende que não importa em quantos pedaços seu coração foi partido,
o mundo não pára para que você o conserte.

Aprende que o tempo não é algo que possa voltar para trás.

Portanto,plante seu jardim e decore sua alma,
ao invés de esperar que alguém lhe traga flores.

E você aprende que realmente pode suportar...
que realmente é forte, e que pode ir muito mais
longe depois de pensar que não se pode mais.

E que realmente a vida tem valor
e que você tem valor diante da vida!

Nossas dúvidas são traidoras e nos fazem perder o bem
que poderíamos conquistar, se não fosse o medo de tentar.

sábado, 30 de abril de 2011

Análise do mito grego a partir de O Nascimento da Tragédia de Nietzsche

Vou postar aqui um dos trabalhos que fiz quando estudava Filosofia na Universidade Federal de São Paulo. Neste trabalho abordo o mito presente no livro O Nascimento da Tragédia de Nietzsche, uma breve história da evolução dos ditirambos à tragédia e o fim da tragédia clássica no período socrático, mito e efeito na tragédia e na vida dos gregos dos instintos apolíneos e dionosíacos.



Introdução

Neste trabalho tento analisar o mito presente no Nascimento da Tragédia, abordando como se dá o efeito apolíneo-dionisíaco na tragédia grega clássica, e posteriormente como com o racionalismo socrático presente em Eurípedes, que tenta apolinizar a tragédia desdionizando-a.
Para isso, analisei primeiramente Apolo e Dioniso dentro da mitologia grega, tentado mostrar suas histórias, seus cultos, e como cada um influenciava a vida do grego, depois analiso em o “Teatro e do Ator”, basicamente no livro da Marlene Fortuna, com o fim de entender o papel do ator no teatro, e qual a importância de se contar mitos na Grécia. Passo em seguida a análise “Dos Ditirambos a Tragédia”, traçando como a tragédia evoluiu dos ditirambos dionisíacos, e o surgimento do teatro com Tépsis, e posteriormente com os outros tragediógrafos analisando a contribuição de cada um para a evolução do teatro, e o papel do coro.
Os últimos dois capítulos são “O efeito apolíneo-dionisíaco”, mostro como que a partir de Apolo, Dioniso pode mostrar a realidade caótica ao povo grego, fazendo com que ele entre em contato com esta realidade sem cair num pessimismo, ou num niilismo, e que a partir do efeito destes dois deuses pode-se haver uma purgação no espectador trágico. E por fim em “Declínio do coro em Sófocles e racionalismo trágico de Eurípedes”, delineio já em Sófocles o início do declínio da tragédia, tendo este atribuído papel secundário ao coro e posteriormente com Eurípedes que mudou completamente a tragédia, retirando o mito, tentando eliminar Dioniso das representações com a inserção do prólogo na peça e a dialética/racionalismo socrático. Tendo a partir de Eurípedes mudado o rumo da tragédia que nunca mais voltou ao ser caráter original.
Encerro minha pesquisa com uma pequena crítica de Nietzsche ao saber racional, que não me estendi muito, pois daria para se fazer uma análise só sobre este assunto, então usei uma pequena citação só para fechar esse ponto do racionalismo grego presente primeiramente na tragédia e depois em toda vida do grego e que vigora até os tempos de hoje. Decidi por não me ater à influência schopenhauriana e wagneriana nos conceitos e em alguns pontos, me atento só no que Nietzsche usou, da maneira que usou sem referências a aqueles. Também não citei alguns pontos principais do livro, pois me ative apenas na parte do mito grego e da tragédia grega, não analisando como se daria, por exemplo, o renascimento a tragédia na Alemanha moderna através de Wagner, nem um aprofundamento na crítica ao racionalismo, a cultura, ao historicismo, dentre outros também pontos principais do livro.
Me ative nesta parte fundamental do livro, porque acredito que seja só a partir da compreensão do mito para o grego que Nietzsche pode tentar recriar na Alemanha moderna a Grécia arcaica, buscando no medievo alemão as formas míticas que se possibilitaria tal recriação. Só a partir da compreensão do mito que foi possível todo o desenvolvimento teórico do livro e todas as teses expostas a seguir.



Apolo – a moderação do homem

Apolo, deus grego da beleza, da luz, da lei, da harmonia. Irmão gêmeo de Ártemis, deusa da caça, ambos filho de Zeus e Leto, deusa da noite. Apolo e Ártemis, assim como Dioniso – que analisaremos em breve – são filhos de Zeus com outras deusas ou mortais, e em ambos os casos foram partos complicados, pois em ambos Hera, esposa de Zeus, se opôs a eles e fez o que pôde para impedi-los.
Leto, percebendo que a hora do parto aproximava-se procurou alguma terra onde pudesse ter seus filhos, porém Hera sabendo da traição de Zeus, proibiu que todas as terras negassem apoio a ela, e quem contrariasse tal ordem sofreria sua ira. Leto parou numa ilha, pois não pertencia a terra nenhuma, era ‘livre’ no mar, ilha que mais tarde Apolo chamaria de Delfos e a colocaria no centro1 do mundo, e lá ficou durante nove dias e nove noite agarrada numa palmeira esperando os filhos nascerem, porém Hera retinha com ela Ilítia, a deusa do parto, e sob ordem de Hera o parto não fora possível.
Conta a lenda que se Ilítia estivesse com a perna esquerda cruzada sobre a direita, o parto não se realizava. E assim Hera a mantinha no Olimpo. Foi através da mensageira Íris que Atena e as outras deusas com compaixão de Leto enviaram a Hera um presente pedindo que o parto se realizasse. O presente foi um colar de fios de ouro enlaçados e de âmbar2 com mais de três metros de comprimento. Hera permitiu o parto e Leto deu a luz à Ártemis e com a ajuda desta a Apolo. Cisnes sagrados sobrevoaram a ilha no momento que Apolo nasceu. Zeus enviou presentes a Apolo: uma mitra de ouro, uma lira e um carro puxado por cisnes; e ordenou que todos fossem a Delfos para prestigiar o nascimento de seu filho.
Porém os cisnes sagrados levaram Apolo ao país dos Hiperbóreos3, onde permaneceu por um ano, e depois retornou à Grécia, especificamente a ilha de Delfos, onde foi recebido com festas e cantos “Até a natureza se endomingou para recebê-lo: rouxinóis e cigarras cantaram em sua honra; as nascentes tornaram-se mais frescas e cristalinas”4. Todo ano são sacrificadas em sua homenagem hecatombes.
A maior aventura de Apolo – e algumas com Ártemis, protegendo, assim, sua mãe - foi matar o dragão Píton. Ao matar Píton, Apolo passou um ano em Tempe, purificando-se, tornando-se assim,

“o deus Kathársios, o “purificador”, por excelência. É que toda “mancha” produzida por um crime de morte era como que uma “nódoa maléfica, quase física”, que contaminava o génos inteiro. Matando e purificando-se, substituindo a morte do homicida pelo exílio ou por julgamentos e longos ritos catárticos, como foi sucedido com Orestes, assassino de sua própria mãe, Apolo contribuiu para humanizar os hábitos antigos concernentes aos homicídios”5.

Em comemoração ao triunfo de Apolo sobre Píton e para “perpetuar a memória da vitória e manter o dragão in bono animo”6, era realizado de quatro em quatro anos os Jogos Píticos, “que deviam seu esplendor sobretudo às disputas musicais e poéticas (...) as Musas imperavam em Delfos”7. Foi também após vencer Píton que Apolo se tornou o senhor do Oráculo de Delfos, e a “pele do dragão cobria a trípode sobre que se sentava a sacerdotisa de Apolo, denominada, por essa razão, Pítia ou Pitonisa”8.
Apolo era o filho de Zeus que se pôs no direito exclusivo de dizer os dizeres de seu pai, revelava e interpretava o pensamento deste através da Pitonisa. O êxtase a que esta entrava para poder revelar aos homens os segredos de Zeus, e Apolo, era uma ‘técnica’ dionisíaca – o êxtase e o entusiasmo -, porém, com efeito, apolíneo. A sacerdotisa de Apolo em estado de êxtase, porém possuída por Apolo respondia a pergunta depois de um pequeno ritual e de um pagamento de taxas, que eram diferentes para os cidadãos, sacrificavam um bode ou uma cabra e se banhavam na fonte da Castália. As consultas eram feitas uma vez por ano, no aniversário de Apolo, porém a procura foi ficando cada vez maior, passando a terem três sacerdotisas e as consultas a serem realizadas todo dia sete do mês, dia do nascimento de Apolo.

“Apolo é considerado o deus Solar, um deus da luz, do arco e da flecha. Realizados do equilíbrio e da harmonia dos desejos, não visava suprimir as pulsões humanas, mas desbarbarizar velhos hábitos, mercê de uma espiritualização progressiva e do desenvolvimento da consciência, as máximas do grandioso templo Délfico pregam a sabedoria, o meio-termo, o equilíbrio, a moderação: “Conhece-te a ti mesmo” e “nada em demasia” são um atestado bem nítido da influência ética e moderada do deus Sol”9.

“O deus que assim conduz ao conhecimento é também o instituidor das regras que dão forma normal ao convívio humano. É com apoio em sua autoridade que os estados fundam suas instituições legais”10.
As artes dramáticas gregas – tragédia e comédia – aumentavam a espiritualidade das pessoas purificando-as de paixões desenfreadas, e do mesmo modo a ginástica, os exercícios físicos, disciplinavam o corpo em todos os seus aspectos, assim as capacidades emocionais, psíquicas e físicas do ser humano aumentavam. O homem grego contemplando as belas formas na vida e as obras-de-arte elevavam sua alma com o fim último de purificar o homem através da catarse.


Dioniso – mito, rito, teatro e mania

Deus do êxtase e do entusiasmo, do vinho e da orgia, deusa da vegetação. O “primeiro Dioniso”, chamado Zagreu é filho de Zeus e Perséfone. Zeus para proteger o filho após seu nascimento entregou-o a Apolo e Curete - pois Hera furiosa queria vingar-se da traição de Zeus – que o enviaram a Parnaso. Hera tendo descoberto onde o filho de Zeus se escondia enviou Titãs disfarçados – com o rosto polvilhado em gesso11 -, atraíram Zagreu e o fizeram em pedaços, tendo cozido e comido-o e seguida12.
Zeus fecundou Sêmele - com o que recuperará de Zagreu – que ficou grávida do segundo Dioniso. Hera após descobrir outra traição de Zeus, metamorfoseada iludiu Sêmele para que esta pedisse a Zeus que se lhe mostrasse em todo seu esplendor. Zeus a advertiu que como mortal não poderia ver um Deus como ele é, mas ela insistiu e como ele havia prometido não lhe contrariar os pedidos, se mostrou e ela foi fulminada. Zeus para salvar o filho, recolheu-o do ventre da mãe e o pôs em sua coxa onde ele completou sua gestação.
Após Dioniso nascer, Zeus o levou a corte de Átamas, na Queronéia e o deixou aos cuidados do irmão de Sêmele, Ino, Hera ao descobrir onde Dioniso estava, enlouqueceu Ino e sua esposa, Átamas, eles ‘enfeitiçados’, mataram os dois filhos, e quando se deram conta do ocorrido, Ino se matou e Atamas, esposa de Ino, foi expulsa da Queronéia. Zeus temendo nova fúria e vingança de Hera, transformou Dioniso num bode e o enviou aos Monte Nisa onde ficara sob os cuidados das Ninfas e dos Sátiros. Tendo permanecido no campo, “Dioniso é um deus essencialmente agrário, deus da vegetação”13.
Até o enfraquecimento militar e político dos Eupatridas Em Atenas no séc. VI a.C., a polis era dominada por eles que controlavam tudo, inclusive a religião, tendo adotado como seus deuses os olímpicos (Zeus, Atenas, Hera, Ares, Afrodite, Apolo). “Balançados pela criação do sistema monetário, pelo vertiginoso desenvolvimento do comércio, pelo descontentamento popular”14, Sólon criou uma constituição para a polis e iniciou-se a democracia em Atenas. Com este novo regime o povo tinha direitos, e com ele e a democracia Dioniso “fez sua entrada triunfal na polis de Atenas”15.
As 4 festas mais importantes em homenagem a Dioniso era: Dionísias Rurais, Semeias, Dionisías Urbanas ou Grandes Dionisías e Antitésrias. Em suas festas “procissões com cantos e danças, onde todos se disfarçavam com máscaras ou disfarçavam-se de animais, o que mostra tratar-se de um sortilégio para provocar a fertilidade dos campos e lares”16.

“Dioniso, é o deus da metamórphosis, o deus da transformação (...) a transformação do homo dionysiacus pelo êxtase e pelo entusiasmo levava a romper com todos os interditos de ordem política, social e olímpicos, que lhe serviam de respaldo (...) Os devotos de Dioniso, após a dança vertiginosa caiam semidesfalecidos. Nesse estado acreditavam sair de si pelo processo do êxtase. O sair de si implicava um mergulho de Dioniso em seu adorador através do entusiasmo. O homem, simples e mortal, em êxtase e entusiasmo, comungando com a imortalidade, tornava-se herói, um varão que ultrapassou a medida de cada um”17. “A liberação provocada pela embriaguez a que se apossa dos que bebem, a que se apodera das multidões arrastadas pelo fascínio da música que lhe desprezam o culto. Desse modo, Dioniso retrataria as forças de dissolução da personalidade: a regressão às forças caóticas e primordiais da vida, provocadas pela orgia e a sustentação da consciência no magma do inconsciente”18.

Deus emocional que representa a ruptura das inibições, dos recalques, das repressões, da lei, deus da permissão, do desregramento, da exuberância, deus da democracia e do povo. Em suas procissões o homem após beber vezes e vezes cai numa dança vertiginosa incitado por sons caóticos e enlouquecedores. O homem embriagado, levado em êxtase e entusiasmo, em delírio e alucinação, põem-se em contato íntimo com os deuses, pois Dioniso, deus democrático que rompe todas as barreiras, classes sociais e política, quer tornar o homem divino e o divino humano. Deus da fertilidade humana e dos animais. Deus que está sempre em movimento, chega e logo parte de cidade em cidade, de festa em festa, era conhecido também por vadio, viandante, vagante, bêbado errante.
Em seus cortejos não faltava “o banquete, a dança, o canto, a orgia”19, orgia que surge após tomarem excessivo vinho, e serem levados ao êxtase pela música transcendental dionisíaca cometem a hybris “uma perversidade desenfreada, uma rebeldia insolente, um excesso, um ultrapassar das medidas humanas e deíficas, que dissolve a personalidade de cada um e faz o um se tornar todos, regridem, pois, às formas caóticas e primordiais da vida, que provoca a orgia”20. Pelo fato de que em êxtase o homem levado pela loucura do deus faz coisas que não faria em estado sóbrio, sendo por isso conhecido como deus da transformação e da metamorfose.
Também é o deus do vinho, pois deu de presente aos homens a dádiva do cultivo da uva, transformando-a em vinho. Dioniso “transformado em bode o faz deus soberano da vinha, porque o bode pisa as uvas para liquefaze-las, a uva esmagada e descansada por longo tempo fermentava (...), transformando-se numa bebida capaz de enlouquecer e libertar o espírito de qualquer cuidado”21. “Vinho criado para acalmar a angústia dos pobres humanos, está bebida traz a dádiva do sono, esquecimento dos males cotidianos (Detienne)”22.
O significado do culto dionisíaco é que o homem desde o seu nascimento está fadado à dor, ao devir e a morte, ele sabe que sua vida é breve e nunca se igualará aos deuses, e em tudo o que ele faz é tentar divizinar-se, imortalizar-se. Com os gritos e os risos, tanto de dor, loucura, ilusão, alegria, revolta, indignação, horror e prazer, e com as máscaras que servem para transformar o homem metamorfoseando-o em qualquer animal ou naquilo que ele deseja, intimamente, ser. Máscara que liberta, que esconde, que transmuta, que rompe com todos os vínculos estabelecidos.
Vínculos rompidos como as separações dos homens em classes sociais, regimes políticos, leis, a liberdade do culto dionisíaco tem o intuito de ridicularizar a vida dos deuses e do ser humano. Liberdade que se vincula “à idéia de renovação universal, ou da errância sexual como necessidade de transformação e revelação, depuração e renascimento”23. “Tudo o que era proibido em tempos ou condições normais, era permitido no espaço da carnavalização”24. Essa liberdade servia para, momentaneamente, fazer o homem sentir-se integrado com os deuses, sendo todos iguais.
A metamorfose do excesso de seu culto, tanto no comer como no beber, como nos mostra Marlene Fortuna em seu “Dioniso e a comunicação na Hélade” “significava o esbanjamento, o excesso, o desrespeito às divisões comuns, associada à idéia de banquete (...), significava o triunfo da devastação e do esgotamento”25.
Foi assim que em as Bacantes, Agave, tomada pelo deus Dioniso, mata seu filho Penteu, quando este tenta espiar as bacantes, não sendo permitido para não bacantes, Dioniso resolve vingar-se, e faz com que Agave, sua mãe, acreditando ser um leão, mata o filho e sai com sua cabeça nas mãos exibindo-se por Tebas, ignorando o que realmente tinha feito. Nesse sentido

“Tudo quanto o aquele que responde em êxtase e entusiasmo fazer, daqui para diante e terá que faze-lo, realizá-lo-á contra si mesmo. Mais um passo e fechar-se-ão sobre eles as garras do destino cego, a Moira (...). Foi assim que a tragédia de Dioniso, esse deus da experiência religiosa punha em risco todo um estilo de vida e um universo de valores, exatamente porque entranhado no homem pelo êxtase e entusiasmo, abolia a distância entre o mortal e os imortais, pôde ser aceito na polis do deus olímpico”26.


O teatro e o ator

Marlene Fortuna no livro citado diz que talvez pelos homens não acharem as respostas às suas perguntas mais íntimas, e o significado de tudo o que o cerca o homem pode ter nascido dramático, há uma necessidade desse jogo teatral, pois ele responde miticamente as incertezas da vida e que o torna mais feliz em sua infelicidade. O teatro serve para descarregar um potencial inerente ao ser humano.
O ator como Dioniso é um vagante, um andante, que muda de lugar para lugar, de teatro em teatro, de festa em festa, de personagem em personagem. O trabalho do ator para ser bem executado deve ter por base Apolo, pois está é aquele que dá as bases para uma boa sustentação racional, estruturação, um bom ator deve “ter ciência”. O ator deve, portanto, se afastar do vinho, e conseqüentemente no êxtase e do entusiasmo, para assim não perder a consciência que mortificaria a interpretação dramática “conduzindo-o a perder a mediação apolínea-dionisíaca”27.
O ator é aquele que ocupa o centro sagrado de Dioniso, ou seja, o palco, e nele dança e “isto o colocava em êxtase, fazendo acordar o divino dentro do coração, ou o enthusiásmos”28. Rosa Maria Dias num ensaio29 cita Schelling para demonstrar essa antítese entre os dois deuses, entre os dois instintos: “estar embriagado e sóbrio, não em tempos diferentes, mas simultaneamente, este é o segredo da verdadeira poesia. É isso que distinguia a inspiração apolínea da dionisíaca”30, sendo o primeiro sóbrio, harmonioso entre seus impulsos e desejos, moderado e o segundo sempre em busca de satisfação, imoderado, bêbado, um destruidor, um instinto desenfreado.

O re-contar os mitos era importante para os povos antigos, principalmente os gregos, porque através dele se acreditava estar tornando presente um mito antigo, Fortuna explicita muito bem sobre este ponto:

“Para a ideologia mítica contar histórias é recriar, re-inaugurar e não apenas rememorar. Contar é uma forma de presentificar um momento inaugural. E aí está o significado mágico do ritual. Nesse sentido, o teatro, “porque conta”, é inaugurador do mito, é também um co-criador do rito, por isso mágico, por isso ritualístico. A diferença é que o ator do rito nas narrativas míticas tribais não é um personagem, é o próprio deus, que é ele mesmo”31.


Dos ditirambos à tragédia

Para se chegar na tragédia, antes é preciso passar pelo drama satírico e pelos ditirambos, onde tudo começou. A origem primordial do teatro se deve à dança principal de um de seus ancestrais, o ditirambo, nas Dionísias Urbanas. Foi nas Dionísias Urbanas que nasceu o ditirambo, que eram canções em louvor ao deus em forma de coro e seus componentes vestiam-se de Sátiros. Ao se aprimorar os ditirambos dando a este um coro regular e uma peça surge o drama satírico.
Com o passar dos anos, o drama satírico que reproduzia Dioniso em algum aspecto passou a representar os heróis, perdendo seu antigo caráter dionisíaco. Afastando-se de Dioniso e adotando como temática os heróis, a tragédia perdeu seu caráter dionisíaco em muitas partes e depois de desdionizada e apolinizada ao máximo a tragédia se tornou uma espécie de liturgia apolínea. Sobre este ponto, será melhor explicitado daqui pro fim do trabalho.
O teatro surgiu com Tépsis, primeiro ator do mundo, quando ele chegou em Atenas por volta de 570 a.C., com outros atores – sendo ele o principal -, o coro, as máscaras e vários personagens e roteiros que ele escrevera. “Tépsis, liderando o coro dos festivais dionisíacos e representando o próprio deus, dando-lhe voz e carne. Tudo isso o ator, esse ser peregrinante sempre em busca da cor estética de mil e uma personalidades”32. Tépsis defendeu o ator como sendo um migrante, alguém sempre em movimento, tal como Dioniso. Após Tépsis vieram Ésquilo (525 – 436 a.C.), Prátinas (512 – 448 a.C.), Frínico (501 – 432 a.C.), Sófocles (495 – 405 a.C.), Quérilo (483 – 393 a.C.), e Eurípedes (443 - 382 a.C.).

“Cada um deles contribui de maneira diferente com o teatro grego. Frínico dividiu o coro em dois grupos e com isso provocou uma divisão de opinião entre os espectadores, além disso, foi o responsável pela introdução de personagens femininos em suas peças; Tépsis inventou a máscara para os atores e introduziu o protagonistés (primeiro ator); Prátinas reprovava as interferências musicais em detrimento da palavra do dramaturgo e conseqüentemente do ator; Ésquilo, antes de ser tragediógrafo, foi ator, mas como escritor sua grande contribuição foi a introdução do deuterogonistés, ou o segundo ator, a quem cabia a criação do conflito; Sófocles inovou o teatro com a criação do tritagonistés, que, diferente do que poderíamos chamar de terceiro ator como nos demais casos, significava vários personagens de uma tragédia interpretados por três atores no máximo; outra inovação de Sófocles foi a introdução da música como atividade própria, separada e autônoma, e a maior estruturação do coro, a ponto deste ganhar um diretor próprio”33.

O coro da tragédia é onde os expectadores, que Nietzsche chama de espectador ideal, sente-se representado e deixa que as cenas atuem sobre ele, para esse espectador o ator não é só um ator encenando, mas o próprio herói encarnado em carne e osso, ele “é obrigado a reconhecer na figura do palco existências vivas”34. O fato de a cena atuar sobre ele é o que garante o consolo metafísico que quer dizer a ele “que a vida, no fundo das coisas, apesar de toda a mudança das aparências, é indestrutivelmente poderosa e cheia de alegria”35.Sem esse consolo “não há como explicar de modo algum o prazer pela tragédia”36.
O que possibilita que a tragédia se lhe apresente em sua completude que possa resultar num consolo metafísico é a música dionisíaca, Nietzsche diz que

“a música estimula à introvisão similiforme da universalidade dionisíaca e deixa então que a imagem similiforme emerja com suprema significatividade. Desses fatos, em si compreensíveis e de modo algum inacessíveis a qualquer observação mais profunda, deduzo eu a capacidade da música para dar nascimento ao mito, isto é, o exemplo significativo, e precisamente o mito trágico: o mito que fala em símiles acerca do conhecimento dionisíaco”37.

Roberto Machado sobre este assunto comenta

“Pensar a música como arte essencialmente dionisíaca significa dizer que ela é o meio mais importante de que o homem dispõe para se desprender de si próprio, para se desfazer da individualidade, e entrar em comunhão com o uno originário, expressando, com a intensificação máxima de todas as suas capacidades simbólicas, a dor e o prazer da vontade”38.

Portanto, o mito fala através da tragédia sobre o “conhecimento dionisíaco” que através da música conseguimos nos desprender de nossa individualidade unindo-nos com a natureza, com o uno originário. Portanto, essa música dionisíaca é, essencialmente, não-apolínea, pois nos integra com o todo, rompendo os laços e possibilitando que Dioniso se expresse em mais alto grau.
Só para encerrar este capítulo, antes de entrar propriamente na reconciliação entre Apolo e Dioniso na tragédia, citarei um trecho onde Nietzsche distingue os coros apolíneos dos dionisíacos:

“As virgens que, com ramos de loureira na mão, se dirigem solenemente ao templo de Apolo e, no ensejo, entoam cânticos processionários, continuam sendo o que são e conservam os seus nome civis: o coro ditirâmbico é um coro de transformados, para quem o passado civil, a posição social estão inteiramente esquecidos; tornaram-se os servidores intemporais de seu deus, vivendo fora do tempo e fora de todas as esferas sociais. Toda e quaisquer outra lírica coral dos helenos é apenas uma extraordinária intensificação do solista apolíneo, ao passo que no ditirambo se ergue diante de nós uma comunicação de atores inconscientes que se encaram reciprocamente como transmudados (...). Nesse encantamento dionisíaco se vê a si mesmo como sátiro e como sátiro por sua vez contempla o deus; isto, em sua metamorfose ele vê fora de si uma nova visão, que é a ultimação apolínea de sua condição”39.


O efeito apolíneo-dionisíaco

Miguel Angel de Barranechea, analisando em Nietzsche a dicotomia civilização/barbárie em um ensaio40 delineia o percurso de Dioniso na Grécia, sua chegada, seu encobrimento por Apolo com seu véu de Maya, o ressurgimento de Dioniso e sua re-integração, que a partir desse momento Apolo e Dioniso coexistiriam na Grécia.
Achamos mais fácil recorrer a Freud e Nietzsche, num estudo de Cíntia Vieira da Silva41 pra descrever o processo de civilização, para partindo daí retomar o estudo de Barranechea, tomando, com isso, o ponto de vista de que, num primeiro momento da civilização – um momento dionisíaco – não havia regras nem leis, tudo era permitido, daí os irmãos que cometeram o parricídio instituem as regras, criam a ordem, a lei – encobrem Dioniso com Apolo. Em Freud, após o parricídio na horda primitiva pelos filhos, eles instituem regras para que um não queria tomar o lugar antes do pai e impor sobre os outros sua vontade. Então a comunidade e a lei surgem para “proteger os homens contra a natureza (Freud 6, pg 47)”42.
No início da civilização dominava o mais forte, a história se construía com força e guerra, era brutal e violenta. Era um Dioniso violento e destrutivo que dominava nos homens. Assim, o que Nietzsche chama de moral de escravo onde os valores são substituídos e é instituída a lei, para que um não queria sobrepujar o outro, Apolo é instituído na história, Dioniso encoberto.
Neste momento pré-artístico, estes dois impulsos vitais já existiam, sendo que as artes oram criados posteriormente as leis cada um com um intuito: Dioniso queria reintegrar o povo com a natureza; e Apolo criar a bela aparência para esconder a realidade do homem. “O apolíneo desativa essas pulsões medonhas – o impulso bárbaro, caótico e titânico de Dioniso -, levando ao autoconhecimento, à individuação, à aceitação de regras coletivas. O homem, devido a essa procedência dicotômica, tende tanto para o brutal como para o harmonioso”43.
Após este primeiro contato, desesperador, com a realidade pura e crua, os gregos tornaram-se apolíneos, encobriram a realidade com o véu de Maya de Apolo, o grego não suportou saber que “a vida humana é transitória, momentânea, que o homem nada é, que teria sido preferível não ter nascido”44.
Assim surge as belas-artes na Grécia, como uma vida de redenção45, uma tentativa de tornar a vida mais doce, mais aceitável, menos terrível, construíram estátuas e templos para “ocultarem o negro abismo, surge o Olimpo, terra de sonhos e beleza46, que permitirá esquecer o terror e o vácuo da existência humana”47. Esse foi o auge de Apolo. “A cidade grega mantém dentro de suas muralhas a arte, a lei, o equilíbrio, o impulso civilizatório”48.
Dioniso, porém, vive agora, depois de ‘exilado’ da Grécia, em Roma e na Ásia, e aos poucos e por todos os lados ele cerca e vai entrando na Grécia, Apolo e sua arte dórica tinham expulsado aquele estrangeiro, aquele deus oriental, que rompe com todas as barreiras, porém,

“É na arte dórica que se imortalizou essa majestosa e rejeitadora atitude de Apolo. Mais perigosa e até impossível tornou-se a resistência, quando, por fim, das raízes mais profundas do helenismo começaram a irromper impulsos parecidos: agora a ação do deus délfico restringiu-se a tirar das mãos de seu poderoso oponente as armas destruidoras, mediante uma reconciliação concluída no devido tempo. Essa reconciliação é o momento mais importante49 na historia do culto grego”50.

Agora Apolo e Dioniso vivem juntos. Estes dois deuses, estes dois impulsos, a dicotomia bárbaro/civilizado coexistem, vivem juntas, se misturam no povo e nas artes, principalmente na tragédia, onde “são apolinizadas as tendências dionisíacas, há um jogo apolíneo com a embriaguez e a desmesura51. Elas perdem o seu potencial destruidor ao serem filtradas pela lanterna mágica da arte”52. A arte transforma a realidade caótica e horrível em representações com as quais se é possível conviver, Apolo transfigurador do principium individuationis53, redime com a arte através da aparência, numa aparência aceitável, isso se dá, como mostra Nietzsche, da seguinte maneira:

“Ao passo que, sob o grito de júbilo místico de Dionísio, é rompido o feitiço da individualidade e fica franqueado o caminho para as Mãe do Ser – “cujos nomes são: Ilusão, Dor, Vontade”54 – para o cerne mais íntimo das coisas”55.“No efeito conjunto da tragédia, o dionisíaco recupera a preponderância; ela se encerra com um tom que jamais poderia soar a partir do reino da arte apolínea. E com isso o engano apolíneo se mostra como o que ele é, como o véu que, enquanto dura a tragédia, envolve o autêntico efeito dionisíaco, o qual, todavia, é tão poderoso que, ao final, impele o próprio drama apolíneo a uma esfera onde ele começa a falar com sabedoria dionisíaca e onde nega a si mesmo e à sua visibilidade apolínea. Assim, a difícil relação entre o apolíneo e o dionisíaco na tragédia poderia realmente ser simbolizada através de uma aliança fraterna entre as duas divindades: Dionísio fala a linguagem de Apolo, mas Apolo, ao fim, fala a linguagem de Dionísio: com o que fica alcançada a meta suprema da tragédia e da arte em geral”56.


Nietzsche afirma que em todas as peças até Eurípedes, todos os heróis trágicos: Prometeu, Édipo e etc, são apenas representações de Dionísio.


Declínio do coro em Sófocles e racionalismo trágico de Eurípedes

Antes do fim da tragédia instintiva ele nos aponta que já em Sófocles iniciou-se o declínio da tragédia quando este vê o coro como secundário e não lhe atribui seu papel originário, principal, declinando-o, e conseqüentemente a tragédia. Nietzsche diz:

“O coro só pode ser entendido como casa primeira da tragédia e do trágico em geral. Já em Sófocles aparece tal embaraço ao coro – um importante sinal de que já com ele começa a esmigalhar-se o corpo dionisíaco da tragédia. Ele já não se atreve a confiar ao coro a porção principal do efeito, porém restringe de tal modo o seu domínio que o coro parece agora quase coordenado com os atores, como se tivesse sido alçado da orquestra para o interior da cena; com o que, sem dúvida, a sua essência fica inteiramente destruída, embora também Aristóteles possa dar a sua aprovação precisamente a essa concepção do coro. Aquele deslocamento da posição do coro que Sófocles recomendou através de sua prática e, segundo a tradição, até mesmo por escrito, é o primeiro passo para o aniquilamento do coro, processo cujas fases se sucederam com assustadora rapidez em Eurípedes, em Agatão e na Comédia Nova”57.

O Século V – VI a.C. foi de grandes mudanças para a história da Grécia, e com ela da tragédia, foi com o surgimento da filosofia racional de Sócrates, Platão e Aristóteles que as artes mudaram seu rumo, sob influência de Sócrates Eurípedes introduziu o prólogo na tragédia, mudando sua estrutura, que passou a ter a seguinte estruturação:

“Diálogo e coro alternavam-se na tragédia grega, pois, da seguinte maneira: iniciava-se a representação com o Prólogo, uma introdução encarregada de dar as explicações necessárias para o entendimento da peça dramática, apresentando ao público a lenda cujos elementos precisavam ser conhecidos ou relembrados. A seguir, no Párodo, o Coro entrava cantando (para-odós: ao longo do caminho, enquanto caminha). Daí por diante, alternavam-se Coro e Diálogo em Estásimos (atuações do Coro) e Episódios, que o teatro moderno chamaria de “Atos”. O último Episódio levava um nome especial de Êxodo e, não raro, terminava com um canto coral, denominado Kommos, em que se uniam cantores e atores. Não havia possibilidade de mudança de cenários, uma vez que os atores deviam permanecer em cena durante toda a peça dramática. A ação devia, pois, ser contínua e desenvolvida no mesmo local, do princípio ao fim. Essa limitações constituíam as bem conhecidas unidades de tempo e lugar, subordinadas a uma terceira unidade principal de ação: a ação dramática devia conter o princípio, o desenvolvimento e o fim de um único acontecimento. (Lime, 1996: 105)”58.

Seguindo este raciocínio, tento mostrar quais os passos seguintes mudaram a tragédia, tentando com Sócrates através de Eurípedes expulsar dionisíaco e fazer uma tragédia apolínea e seguir os passos de Eurípedes até por fim declinar toda a arte grega com o racionalismo socrático-platônico.
Com Eurípedes a tragédia sofreu sérias mudanças e com a inserção do prólogo antes do início da peça e o racionalismo e a dialética influenciado por Sócrates, Eurípedes tenta des-dionisar a tragédia, tornando-a uma tragédia apolínea. Inspirado nas máximas socráticas: “Tudo deve ser consciente para ser bom; virtude é saber; só se peca por ignorância; O virtuoso é o mais feliz”59, o princípio estético euripidiano passa a ser “tudo deve ser consciente para ser belo”60.

“Eurípedes acreditava ter notado que, durante aqueças primeiras cenas – da tragédia sofocliana-esquiliana -, e o espectador tomado de peculiar inquietação, ao querer resolver o problema de calcular a estória antecedente, de modo que a beleza poética e o pathos da exposição antes da exposição e na boca de um personagem a quem se devia conceder confiança”61.

Nietzsche comenta a respeito do prólogo que ele desmascarando a tragédia, ela perde seu poder do consolo metafísico, e que com este também se perde aquela tensão de viver e de vivenciar, de se imaginar aquilo que se passará na cena como real, não é mais vivenciado, os atores não são mais “heróis re-encarnados”, mas simplesmente atores que anunciam algo e contam em seguida, ele comenta:

“O que nós, em comparação à tragédia sofocliana, costumávamos levar antes tantas vezes à conta de Eurípedes como defeito, é principalmente produto desse penetrante processo crítico, dessa atrevida intelecção. O prólogo euripidiano nos serve de exemplo da produtividade desse método racionalista. Nada pode haver de mais contrário à nossa técnica cênica do que o prólogo no drama de Eurípedes. Que uma personagem individual se apresente no início da peça contanto quem ela é, o que procedeu à ação, o que aconteceu até então, sim, o que no decurso da peça há de acontecer – isso um autor teatral moderno tacharia de renúncia propositada e imperdoável ao efeito da tensão. De fato, sabe-se tudo o que vai ocorrer. Quem vai querer esperar que ocorra realmente? – mesmo porque, no caso, não se verifica absolutamente a excitante relação de um sonho vaticinador com uma realidade que se apresentará mais tarde. Completamente diverso era o modo de Eurípedes refletir. O efeito da tragédia jamais repousava sobre a tensão épica, sobre a estimulante incerteza acerca do que agora e depois iria suceder, mas antes sobre aquelas grandes cenas retórico-líricas em que a paixão e a dialética do protagonista se acaudalavam em lardo e poderoso rio. Tudo predispunha ao pathos era considerado reprovável”62.

Com o prólogo e a influência socrática, Dionísio estava sendo expulso de vez da tragédia, que nunca mais retornou ao seu lugar original. Sócrates o inimigo de Dionísio deu cabo de sua influência para padronizar a arte, para torna-la bela, racional, harmônica. Fazendo dela, um lugar não mais do mito, mas da razão, da argumentação “agora tem de haver entre virtude e saber, crença e moral, uma ligação obrigatoriamente visível”63. Agora a serenojovialidade do homem grego é a

“Serenojovialidade do homem teórico (...) que ela trata de dissolver o mito, que ela substitui um consolo metafísico por uma consonância terrena, sim, por um deus ex machina próprio, a saber, o deus das máquinas e crisóis, vale dizer, as forças dos espíritos naturais conhecidas e empregadas que acredita numa correção do mundo pelo saber, em uma vida guiada pela ciência”64.

Um dos temas abordados no livro é, também a crítica ao modelo de pesquisa de sua época, ao historicismo, de como tratavam do conhecimento do passado com conceitos e encerrados em si, assim, ele combate esse modelo de vida guiado pela ciência, pelo saber, que vem desde Sócrates. Não nos deteremos nesse ponto, mas para fechar este ponto citaremos um trecho da crítica às ciências exposto no Nascimento da tragédia:

“Não haveria ciência se ela tivesse a ver apenas com essa única deusa nua e nenhuma outra. Pois então os seus discípulos deveriam sentir-se como aqueles que quisessem escavar um buraco precisamente através do globo terrestre, uma vez que cada um deles percebe que, ele, mesmo como máximo esforço durante a vida toda, só seria capaz de escavar um pequeníssimo pedaço daquela profundidade imensa, parte que é, ante seus próprios olhos, recoberta pelo trabalho do seguinte, de modo que uma terceira pessoa parece proceder bem se escolher um novo local para sua tentativa de perfuração”65.



Conclusão

Tentei com esta pesquisa mostrar que é a partir do entendimento de que a tragédia, e a vida do povo grego se constituem a partir de dois impulsos vitais contrários, o apolíneo e o dionisíaco, que sendo contrários, cada um tem uma hora de glória sendo que logo em seguida seu contrário, volta a tona, e que por fim, os dois se reconciliam e então a cultura grega chega a seu ponto mais importante, pois é daí que surge a tragédia clássica grega.
O que eu acredito ter sido a chave fundamental do livro foi que, pela primeira vez, como apontou em aula o professor Henry Burnett66, se via uma Grécia não apolínea, perfeita, o que constitui o erro principal dos antepassados de Nietzsche. Para este, a Grécia não deve ser estudada do ponto de vista de ser um povo pleno, perfeito, acabado em si próprio, pois se fosse não teriam necessidade da tragédia, nem se colocariam no palco as impossibilidades do homem.
Tendo, pois, Nietzsche, dado este passo a frente e essencial ele pôde interpretar a Grécia com um novo ponto de vista, um ponto de vista da duplicidade de instintos contrários que surgem no seio deste povo, além da visão não moralizante da tragédia, de se interpretá-la sem a visão de culpa do herói trágico, a partir dele, interpreta-se as tragédias como sendo o destino algo que não se resolve, como pretendia a tradição moral cristão, a partir de uma espiritualização e de uma ascese, mas que o destino deve ser vivido, sofrido e nada pode interferir nisso.
Logo após o grande período da Grécia, onde Apolo e Dioniso viviam juntos, de mãos dados, vivendo num jogo artístico e as artes bebendo de suas fontes, veio o grande vilão das artes e o primeiro moralizador da história e pôs tudo abaixo, desconsiderando toda a criação instintiva dos tragediógrafos anteriores, e Eurípedes fortemente influenciado por Sócrates, o verdadeiro vilão da tragédia grega clássica e do modo de vida de sua época, vieram destruir toda a criação instintiva, dionisíaca, instituindo primeiramente o prólogo, e inserindo na tragédia a dialética socrática, o excesso de racionalismo. Marcando assim o fim da tragédia clássica grega e do mito.




Notas Bibliográficas

1 Centro metafórico, centro como lugar onde o deus se coloca. Cf. Brandão 2
2 O âmbar simboliza, destarte, o fio psíquico que religa a energia individual à energia cósmica, a alma individual à psique universal”. cf Brandão 2, pg. 63
3 Sobre os Hiperbóreos “Vive lá um povo santo que não conhece velhice nem doença, de quem dores e lutas ficam longe...”, Píndaro. In: cf Otto 3, pg. 53
4 cf Brandão 2, pg. 84
5 cf Brandão 2, pg. 94
6 cf Brandão 2, pg 95
7 cf Brandão 2, pg 96
8 cf Brandão 2, pg 94
9 cf Brandão 2, pgs. 84, 85 e 96
10 cf Otto 3, pg. 63
11 “De saída cobrir o rosto com pó de gesso ou com cinzas é um rito arcaico de iniciação? Os neófitos cobriam as faces com pó de gesso ou cinza para se assemelharem aos eídola, aos fantasmas, o que traduz a morte ritual”. cf Brandão 2, pg.118
12 “Jeanmaire lembra que a cocção, sobretudo num caldeirão, ou a passagem pelas chamas constitui uma operação mágica, um rito iniciático, que visam a conferir um rejuvenescimento; especialmente, em se tratando de criança, o rito tem por objetivo outorgar virtudes diversas, a começar pela imortalidade” (...) “Acentua Mircea Eliade que “os dois ritos” – desmembramento e cocção ou passagem pelo fogo – caracterizam as iniciações xamânicas. De fato, os Titãs comportam-se como Mestres de iniciação, no sentido de que matam o neófito, a fim de faze-lo “renascer” numa forma superior de existência.. cf Brandão 2, pg. 119
13 cf Brandão 2, pg 123
14 cf Brandão 2, pg 125
15 cf Brandão 2, pg. 125
16 cf Brandão 2, pg. 126
17 cf Brandão 2, pg. 130
18 cf Brandão 2, pg. 140
19 cf Fortuna 4, pg. 50
20 cf Fortuna 4, pg. 45
21 cf Fortuna 4, pg. 39
22 cf Fortuna 4, pg. 48
23 cf Fortuna 4, pg. 84
24 cf Fortuna 4, pg. 83
25 cf Fortuna 4, pg. 93
26 cf Junito 2, pg. 133
27 cf Junito 2, pg. 51
28 cf Junito 2, pg. 236
29 Cf Dias 5
30 Cf Dias 5, pg. 174
31 Cf Fortuna 4, pg. 220
32 cf Junito 2, pg. 243
33 cf Junito 2, pg. 249
34 cf. Nietzsche 1, Pg. 50
35 cf. Nietzsche 1, Pg. 152
36 cf. Nietzsche 1, Pg. 104
37 cf. Nietzsche 1, Pg. 98/9
38 cf. Machado 9, Pg. 230
39 cf. Nietzsche 1, Pg. 57
40 cf Barranechea 6
41 cf Silva 7
42 Cf Silva 7, pg. 48
43 cf Junito 2, pg. 161
44 cf Junito 2, pg. 162
45 “Os deuses olímpicos não foram criados como uma maneira de escapar do mundo em nome de um além-mundo, nem ditam um comportamento religioso baseado na ascese, na espiritualidade, no dever; são a expressão de uma religião da vida, inteiramente imanente, religião da beleza como floração – e não da falta -, que diviniza o que existe(...) Divinizar, neste contexto, significa fundamentalmente tornar bela, embelezar: a arte apolínea é a arte da beleza: se os deuses olímpicos não são necessariamente bons ou verdadeiros – como o deus das religiões morais -, eles são belos; para o grego beleza é medida, harmonia, ordem, proporção, delimitação mas também significa calma e liberdade com relação às emoções, isto é, serenidade, contra a dor, o sofrimento, a mote o grego diviniza o mundo criando a beleza. “Não existe belo natural” (NT, §3), o mundo grego da beleza é o mundo da “bela aparência”, a beleza é uma aparência”. cf Machado 8, pg. 18/9
46 “A beleza é uma aparência, um fenômeno, uma representação que tem por objetivo mascarar, encobrir, velar a verdade essencial do mundo”. cf Machado 8, pg. 19
47 cf Barranechea 6, pg.162
48 idem
49 “Importância que Nietzsche exprime em termos médicos afirmando que a arte possui um verdadeiro efeito terapêutico, é um eficaz ato de cura: a arte dionisíaca transforma um veneno – a poção mágica, o filtro das feiticeiras – em remédio, retirando de Dioniso suas “armas destruidoras”. cf Machado 8, 23
50 cf Nietzsche 1, pg. 30/1
51 “A desmesura se revela como verdade, no sentido de que à beleza da medida se opõe a verdade da desmesura ou de que à mentira da civilização se opõe a verdade da natureza” cf Machado 9, 214
52 cf Marlene 4, pg 164
53 “Através do principium individuationis se produz a necessidade dessa transfiguração artística, esse “desejo originário de aparência” é o que possibilita a muralha capaz de resistir à sabedoria do Sileno” cf Machado 8, pg. 20
54 cf. Nietzsche 1, Pg. 120
55 cf. Nietzsche 1, Pg. 95
56 cf. Nietzsche 1, Pg. 127
57 cf. Nietzsche 1, Pg. 87
58 cf Junito 2, pg. 241/2
59 cf. Nietzsche 1, Pg. 87
60 cf. Nietzsche 1, Pg. 80
61 cf. Nietzsche 1, Pg. 79
62 cf. Nietzsche 1, Pg. 78/9
63 cf. Nietzsche 1, Pg. 87
64 cf. Nietzsche 1, Pg. 105
65 cf. Nietzsche 1, Pg. 90







Referências Bibliográficas

1) NIETZSCHE, Friedrich. O Nascimento da Tragédia. Tradução de Jacó Guinsburg. Cia de Bolso, 2007
2) BRANDÃO, Junito de Souza. Mitologia Grega. Vozes, RJ
3) OTTO, Walter Friedrich. Os Deuses da Grécia. Odysseus, 2005
4) FORTUNA, Marlene. Dioniso e a comunicação na Hélade. Annablume, 2005
5) DIAS, Rosa Maria. “Um Dioniso Bárbaro e um Dioniso Civilizado no pensamento do jovem Nietzsche” In: Encontros Nietzsche, org. Vânia Dutra de Azevedo, Unijui,
6) BARRANECHEA, Miguel Angel de. “O aristocrata nietzschiano: para além da dicotomia civilização/barbárie” In: Nietzsche e Deleuze – Bárbaros e Civilizados, Org. Daniel Lins e Peter Pál Pelbart, Annablume, 2004
7) SILVA, Cíntia Vieira de. “Nietzsche, Freud e o problema da cultura” In: Cadernos Nietzsche nº 08, Discurso, 2000
8) MACHADO, Roberto. Nietzsche e a Verdade. Graal, 1999
9) MACHADO, Roberto. “Capítulo Seis: Nietzsche e a representação do Dionisíaco” In: O Nascimento do Trágico – de Schiller a Nietzsche, Jorge Zahar, RJ, 2006

Desespero

Não se vê o desespero das pessoas em seus olhos, só quem sente sabe a intensidade e o quão terrível é este sentimento, e há algumas sensações que podem intensificar ainda mais o desespero. Pode-se estar desesperado por amor, por alguém, por algo, por querer algo, por necessitar de algo, para esquecer, para superar, e quando há o sentimento de impotência, de fracasso, medo, falta de força, de coragem há uma intensificação do desespero. Na sociedade o homem em desespero age normalmente, não deixa transparecer o que sente e quando não está bem, qualquer desculpa cai bem: mal-estar, preguiça, sono, cansaço, desanimo, qualquer probleminha torna-se uma justificativa, e todos estão com tanta pressa, tão preocupados com seu próprio nariz que não percebem que algo está desajustado, e para quem sofre quanto menos questionarem melhor, dificilmente sente-se a vontade de desabafar com alguém, por mais que queira conversar, as pessoas estão muito presas à elas mesmas, com medo de julgamentos alheios, às vezes com a certeza de que ninguém poderá ajuda-las, são raras as pessoas que realmente podem fazer alguma coisa quando o problema está em nosso coração. O que normalmente é tido como o pior sentimento é o vazio, o amor não correspondido, a impotência de sentir quando se precisa disso.
Há remédios para o amor, para a incapacidade de amar, para o desejo de vida?
Grande parte das pessoas buscam as respostas nos lugares errados, e quando se dão conta de que suas ações foram infrutíferas, torna-se pior a sensação de si mesmo. Muitos entregam-se as bebidas, a libertinagem, desligam sua capacidade de pensamento ou preocupação com o exterior (pessoas, coisas, opiniões etc). As pessoas conseguem viver assim por longos anos, talvez à vida inteira, mas todos os dias naqueles minutos que antecedem o sono, quando você está sozinho na sua cama e seus pensamentos estão livres para aterrorizá-lo torna-se insuportável qualquer idéia. Normalmente as pessoas mudam, aos poucos, seu comportamento, suas ações, suas opiniões, começam a fazer coisas que não faziam, que não suportavam, que odiavam até sua última gota de sangue.
O que comumente leva as pessoas ao desespero é o medo de ficarem sós, as pessoas não são, não estão e nem conseguem compreender a idéia de ficarem sós, elas necessitam de companhia, de pessoas, de alguém, por mais que isto seja prejudicial preferem sofrer acompanhadas, como dito pelo Renato Russo
"digam o que disserem, o mal do século é a solidão, cada um de nós imerso em sua próprio arrogância esperando por um pouco de afeição”.
O mal do homem está no fato de que ele sente, quanto mais ele conseguir desligar seus sentimentos menos sofrerá, o homem sofre por amar, por esperar, por desejar, por confiar, em tudo o que faz espera algo da outra parte e sempre espera muito e do seu jeito, e, claro, cada um de nós é um universo de desejos, esperanças, crenças, amores, sonhos, nossa interação está baseada naquilo que queremos e esperamos. Não aprendemos a conviver para o bem público, não aprendemos a viver para o próximo, como homens, vivemos egoisticamente em todas as nossas ações, por mais simples e, aparentemente, sem intenção, em tudo há interesses e motivações, em tudo há respostas que não estão de acordo com o que planejamos e isto que nos traz diversos sentimentos negativos, que variam de intensidade e modo dependendo de cada um e de cada situação.
O homem é um animal racional egoísta que sente, em tu do o que faz espera tirar o melhor proveito para si, se não nesta vida em outra, alguns sacrificam o presente achando que ganharão algo melhor na outra vida, a vantagem disto é que seu sofrimento não dói tanto, justamente por acreditarem que nisto reside sua salvação, aquele que consegue mentir a si mesmo ameniza o tamanho de sua dor.
Todos os sentimentos do homem quando não há está fé sem precedentes são falsos, a própria fé é uma falsidade, mas ela exige tanto esforço e tempo para ser questionada, posta a prova e deixada de lado, que a maior parte das pessoas não tem força o suficiente para tanto, então neste caso, esta regra não se aplica da mesma maneira. O único sentimento real no mundo é o ódio, o amor muda, a fé pode mudar, amizades mudam, acabam, tudo o que você imaginar pode mudar, mas não se deixa de odiar alguém, pode-se mudar de opinião sobre alguém que não se gosta, não vai com a cara, têm-se uma impressão negativa sobre tal pessoas, mas quando se conhece e há um motivo para odiá-la, nada o fará mudar de idéia. Todos os sentimentos restantes são instituídos a partir das leis e regras criados
“para proteger os homens contra sua natureza” (Freud), "(...) a moral é condicionada aos acontecimentos da história do homem que o levaram a criar os valores que conhecemos e não outros.” (Cíntia Vieira da Silva, in Cadernos Nietzsche 8, 2000, pg. 44).
Desta forma nossos sentimentos foram instituídos a partir de uma série de instituições que criaram valores para tornar os homens menos violentos, instintivos, titânicos e adestra-los para um convívio pacífico, em sociedade, este foi o papel das religiões, das leis, regras e ordem instituídas desde que o homem começou a se organizar em sociedades, evoluídas com o homem e apropriadas para cada época e lugar. Hoje não vemos mais um sinal positivo de criação ou de reeducação dos valores, os tempos mudaram, somos outros, mas permanecemos com os mesmos valores de outrora, parte de nosso desespero surge daí, olhamos com os mesmos olhos do passado o atual, e julgamos da mesma forma que antes coisas novas, o homem tornou-se demasiado cansado, com medo de ir adiante, tudo indica que ou retornaremos à barbárie ou algo destrutivo acontecerá, não há em nosso campo de visão para o futuro esperanças de tempos melhores, tudo o que é bom deteriorou-se e agora nos agarramos com toda força que possuímos naquilo que nos fortalece, mesmo que seja negativo, pois temos medo do que possa acontecer e este medo nos congela, ao ponto de não conseguirmos superar o nosso tempo, ir para além do homem... Até que haja uma reinvenção de si, o homem sofrerá, seu desespero continuará sem resposta, sem (re)solução, precisamos abandonar nosso medo, dedicarmos mais tempo à humanidade, ao julgamento e criação de valores, de nós mesmos, do sentido da palavra homem, da definição de nosso rumo e de nossa história. Eliminarmos tudo o que sobrou de Véu de Maya, que nos faz ver apenas àquilo que imaginamos benéficas, aquilo que queremos ver, precisamos enfrentar à sangue nós mesmos, nosso lado obscuro, para podermos superior nosso tempo e criamos os valores para o homem do futuro.

domingo, 24 de abril de 2011

Esboço de uma Futura Pangéia Cultural

Para que serve o conhecimento? – isto é, para que serve nossa racionalidade? Por que ainda hoje, pomos em risco nossa vidas, a vida de muitos, a vida de todos, produzindo a guerra? Por que o animal racional é irresponsável para com sua própria existência e intolerante para com seu semelhante, se a razão (e não a loucura) nos aconselha caminhos de diplomacia e de compreensão mútua, e deveria servir de fundamentos para nossas relações?****
Antigamente tínhamos cada país separado e organizado dentro do seu território com sua cultura própria, seu governo e todas as suas idiossincrasias. Com o passar dos anos muitos impérios expandiram-se e criaram guerras com outros reinos e comunidades para possuírem escravos para novas guerras, para aumentar seu poder, sua riqueza, sua influência no Mundo etc. Foi assim com os mongóis, com os gregos, com os persas e principalmente com os romanos. Nenhum país dominou tantos povos diferentes e por tão longo tempo como o Império Romano, muitos imperadores, reis, tiranos, governadores que estiveram à frente de Roma durante seus 1000 anos de glória conquistaram países diferentes de formas diferentes, muitas vezes dominando esses povos e oprimindo suas culturas, impondo o modo romano de pensar, ensinando o latim, sua religião etc. Poucos imperadores como Alexandre, o Grande e Marco Aurélio conquistaram povos, mas permitiam sua cultura, seus hábitos, mesclando-as com os costumes romanos, porém submetidos e dominados por Roma.
Ao longo da história vemos o surgimento de vários religiões, seitas, doutrinas, nas diversas localidades do planeta e das mais diversas formas de culto, temos religiões antigas como o Islamismo, o Zoroatrismo, o Budismo, o Hinduismo, o Cristianismo dentre outras e algumas novas como o Cardecismo, várias religiões neopentecostais, o Candomblé etc. As religiões ditam todas as regras que as pessoas devem seguir em suas vidas, seus dogmas são fechados e não há tolerância quanto a costumes diferentes daqueles, em cada religião há uma forma de castigo ou punição para um ato que não seja permitido dentro de sua doutrina, alguns ocorrem em vida, e outros no além, após a morte. Seguidamente da religião e de aspectos históricos, geográficos, políticos etc temos outras formas que divergem entre as nações como hábitos alimentares, instituições e organização política, modo de vida, grau de desenvolvimento tecnológico etc. Cada um destes pequenos detalhes fazem com que cada sociedade, e não necessariamente cada nação tenha uma cultura diferente, temos, como no Brasil, por exemplo, diversas culturas e tradições diferentes, até mesmo opostas dentro do mesmo território, existem vários “Brasís” dentro de um Brasil unificado pelos limites territoriais e governamentais.
Em cada um dos mínimos detalhes surgem divergências entre as comunidades, pois cada qual defende o que lhe pertence como superior ao vizinho ou ao diferente, cada povo quer se mostrar superior e impor de algum modo seus hábitos e sua cultura aos demais, algumas vezes de modo pacifico e na grande maioria através de guerras e sangue.
A partir do fim da segunda guerra mundial temos o mundo separado em dois blocos governamentais, os capitalistas e os socialistas, ao longo dos anos, até 1989 com a ruptura do murro de Berlim e com dissolução da URSS em 1991 o mundo passa a se unificar novamente e poucos são os países que mantêm governos e economias socialistas, muitos deles sucumbem e são feitas uma série de reformas políticas e econômicas e mudam sua política interna e externa, alguns mantêm-se fechados ao mundo, como Cuba e a China, este que no decorrer dos anos foi abrindo sua economia externa e se tornou uma das maiores do mundo, porém internamente ainda permanece um regime socialista opressor aos cidadãos.
Cada povo tem sua história, escrita com muitas guerras e sangue, e o caminho traçado por cada um fez surgir alguns traços nacionais que correspondem às características dos países, e suas alianças com os demais, alguns ódios reprimidos como Brasil e Argentina ou Inglaterra e França, sentimentos ligados a história, a rivalidade destes países ao longo da história, e por mais que haja paz entre estas nações, cada pessoa tem um sentimento com relação a isso e na maioria das vezes faz o que pode para mostrar-se superior ao “inimigo”.
Assim, temos vários fatores que marcam a história dos países e suas divergências, e cada peculiaridade é um sinal de rivalidade, confronto, de dominação e poder. Com a globalização temos a abertura de quase todos os países para o Mundo, vemos os povos e as culturas misturaram-se como nunca antes vista, talvez a forma que mais se aproximou foi a helenização do mundo antigo dominado pela Roma de Alexandre e Marco Aurélio. As pessoas podem ir para qualquer lugar do mundo e aprender qualquer cultura, muitas vezes um brasileiro é grande especialista em cultura nórdica, por exemplo, mesmo sem nunca ter ido até aqueles países, ou convivido por um longo tempo lá. O mundo está aberto a qualquer um e aos poucos as culturas e as raças vão se misturando.
Ainda que estamos em meio a uma série de guerras e revoltas internas ou entre nações, aos poucos as individualidades se diluem em meio a imensa possibilidade que temos à frente, não mais somos obrigados a conviver em determinado lugar, cultura, política etc, temos liberdade absoluta para viver no mundo, basta-nos dinheiro e coragem para nos aventurarmos num mundo totalmente desconhecido.
Analisando os rumos históricos e tentando traçar um futuro para os países analisando o passado, vejo em cada um destes aspectos como um sinal de uma pangéia cultural futura, onde o mundo inteiro estará unido, não fisicamente, mas psicologicamente, teremos a possibilidade de excluirmos tudo o que há de negativo, de retrógado e construirmos uma cultura mundial.
Hoje em dia temos um grande número de pessoas, mais do que no passado, de ateus, de descrentes, de céticos, de religiões fundamentadas no homem, como o Satanismo de Lavey. Religiões aos poucos vão mudando algumas crenças, alguns dogmas de acordo com o que temos atualmente, não podemos nos basear em dogmas escritos há milênios ou séculos atrás, os mundo mudou, as pessoas mudaram, nada retornará ao que já foi, para o bem ou para o mal o mundo é sofre constantemente de mudança e evolução. E o primeiro passo para a paz mundial é a dissolução de todas as religiões, numa época onde não existirá mais dogmas, mais religiões, onde todos serão livres e sua conduta basear-se apenas numa justiça ética e racional todos serão iguais uns aos outros, do ponto de vista ético-moral, e um não quererá (até por não ter como) sobrepor-se ao outro pelas suas crenças.
Aos poucos as raças se igualarão, mesmo que todas as pessoas não sejam necessariamente iguais, em algumas décadas ou séculos estaremos todos tão parecidos que não haverá motivos para o ódio por outras raças. E da mesma forma um dia teremos um modelo governamental, que ao longo dos anos se mostrará mais útil a todos, seja ele democrata, tirano, parlamentar, enfim, qualquer que seja, será o único a ser adotado entre as nações.
A música um dia chegará ao fim de suas possibilidades, um dia todas as combinações musicais já terão sido formadas, não haverá possibilidade de novas construções e a educação musical será reformulada, teremos a união de várias tendências e apenas alguns poucos estilos sobreviverão. A música retornará a ter um caráter ritualístico, e musicas como o funk, por exemplo (dentre outros estilos), de exaltação sexual desmedida e o desprezo pela mulher não existirão mais, músicas regionais também sumirão, pois não haverá sazonalidades, todos serão integrantes de uma nação global. Nas primeiras décadas desta mudança ainda haverá aqueles que ouvirão estes estilos secundários, porém em algumas décadas, tudo estará unificado, é o processo natural de evolução, o obsoleto ficará na história. Da mesma forma ocorrerá com a literatura e o cinema não haverá mais histórias de cowboys do faroeste americano ou dos índios tupi-guarani do Brasil ou dos aborígenes australianos, as pessoas não se reconhecerão mais nestes estereótipos, tudo deverá ser global para ser compreendido e aceito.
No dia em que não existir mais diversas religiões, culturas, raças e estilos o mundo estará completamente unificado social, econômico e político. Neste dia teremos ainda dois possíveis caminhos: ou uns lutarão contra os outros por riquezas e poder ou todos poderão construir um caminho para o além de si, talvez neste estágio o homem e a terra estarão preparados para o além-do-homem, para ir além das peculiaridades do hoje e formar um reino de humanos-hiperbóreos. Hoje vemos o primeiro passo para esta mudança com a globalização, o acesso a qualquer cultura e povo, e contato fácil com qualquer pessoa ao redor do mundo, facilitado pelas redes sociais e grandes sites mundiais como o Wikipédia, a primeira forma de união por um mundo melhor em escala global, onde todos colaboram com o conhecimento, que hoje, está ao alcance de todos. Vivemos na época da colaboração e para podermos construir um mundo pacífico e unido será através da colaboração de todos, não só na disseminação da cultura, mas na sua aplicação, na ajuda individual que cada um tem por obrigação de não só receber ou passar tal conhecimento, mas colaborar com o surgimento de grandes idéias e de coisas que beneficiem a todos, quanto a consciência do eu passar para a consciência coletiva, todos ajudarão a construir as pontes que levarão o homem ao além-do-homem e assim vivermos como hiperbóreos, longe das guerras, do mal, da cobiça e do ódio.



**** Questões extraídas do artigo “Demasiado Humano?” de Jaya Hari Dias, em Conhecimento Prático Filosofia, Ed. 29

sábado, 26 de março de 2011

Distância entre as pessoas com o uso da Internet

Não sei por que, mas algo me fez pensar essa semana em como a internet aproxima e distancia as pessoas ao mesmo tempo... Estranho né? Sempre vi a internet como um poderoso aliado na busca de pessoas que há muito não se via ou se falava através das redes sociais e programas de comunicação instantânea... Algo me fez lembrar um amigo e pensei em ligar para conversarmos, ver como ele estava e tals, no mesmo dia vi a sobrinha dele, que na hora não a reconheci, cegueira é f..., mas enfim... Naquele ou no outro dia entrei na internet e vi alguns comentários deste amigo no facebook e tals, com fotos e sabia que estava tudo bem, e parei para pensar nisso... A internet deixa todo mundo próximo, você adiciona seus amigos, conhecido, conhece pessoas novas, mas o contato é virtual, você fala sobre tudo, as vezes tem MUITA intimidade sem ao menos ter visto esta pessoa alguma vez na vida... Eu mesmo conheci algumas pessoas assim.. Há uns 7/8 anos atrás conheci uma menina e sempre conversamos pela internet, éramos MUITO amigos, conversávamos horas a fio pela madrugada, todos os dias e etc e nunca a tinha visto, fui vê-la pessoalmente depois de uns 7 anos e é estranho, ao mesmo tempo que você conhece perfeitamente aquela pessoa quando você a vê pela primeira vez parece que não a conhece em nada, pelo menos foi a sensação que eu tive, eu conhecia aquela menina virtualmente, mas como ela era na vida real? Não sabia, não podia definir, será que era a mesma pessoa??? Na internet podemos conversar com alguém sem saber se realmente é aquela pessoa com quem estamos falando, do outro lado da tela pode ser qualquer pessoa se passando por ela, as pessoas podem criar estereótipos, personagens, afinal a internet é um lugar de sonhos, imaginação, criatividade, você pode ser quem você quiser, é só saber sustentar esta ideia e acreditar nisso.. É tão real quanto ilusória...
Mas voltando ao assunto... Ao mesmo tempo em que temos contato pela internet com todos os conhecidos o tempo todo isso afasta as pessoas, não temos mais tanto contato pessoal, tanto calor humano quanto tínhamos antes da utilização destas ferramentas como fazemos hoje, antigamente, tínhamos que ligar para saber como as pessoas estavam, as visitávamos, combinávamos todos de sair algum dia para algum lugar, hoje em dia perdeu-se um pouco disso, por mais que as pessoas ainda se vêm a freqüência destes contatos diminuiu muito. Pense em quantas pessoas você tinha contato diariamente antigamente, na escola em algum trabalho ou curso e como é seu contato com estas pessoas hoje em dia... Grande parte do encontro das pessoas hoje em dia se dá em barzinhos e baladas, a finalidade é sempre outra não o contato, mas a diversão ou distração, a bebedeira, algum show ou evento etc, não a amizade em si... Há pessoas que ficam na internet 24 horas por dia ou em casa ou através de celular, e muitas vezes apenas pelo fato de ver alguns comentários e fotos da pessoa na internet em algum lugar não ligamos pra saber como ela está porque sabemos (ou achamos) que ela está bem, mandamos as vezes uma mensagem ou outra, mas sempre rápidas e por mais entusiasmadas são frias... As pessoas se distanciam sem saber, perde o contato humano, toda nossa realidade aos poucos vai se virtualizando, aos poucos temos mais e mais opções na internet de lojas e produtos e serviços, para grande parte das coisas que precisamos não saímos mais de casa para comprar ou contratar fazemos tudo virtualmente. Cada vez mais nos isolamos em nosso mundo e nos conectamos com outros mundos isolados com mensagens, nunca com corpos (sem levar isso para o lado da sacanagem), mas as interações humanas cada vez mais tornam-se mecânicas, frias, em preto e branco...

domingo, 13 de fevereiro de 2011

Hino Nacional Brasileiro

Ontem, 5/2/2011, na formatura do técnico da minha irmã depois de cantaram uma música que deveria ser do Rick Martin e outra do Elton John, teve o discurso de ‘início’ da formatura, depois tocou-se o hino nacional, enquanto o hino era executado e cantávamos me veio algumas dúvidas na cabeça (só poderiam me vir nela mesmo):
• Será que as pessoas entendem o hino nacional?
• Será que ele nos representa?
• Quem o escreveu?
• Será que o hino integra todo o país?
• Será que as pessoas o conhecem?
• Sabem das circunstâncias das quais ele foi composto e do que fala?
• Será que sabem da história do nosso pais?
• Por que os países têm um hino nacional, o que isto representa?
Isto me despertou certa curiosidade e então fui recorrer ao sabido Google para sanar algumas dúvidas, logo de cara já encontrei algo que boa parte dos brasileiros não devem saber, sempre soube que não poderíamos aplaudir após o hino, mas nunca soube porque, eis que me aparece a Lei nº 5.700, de 1 de setembro de 1971, que “Dispõe sobre a forma e a apresentação dos Símbolos Nacionais, e dá outras providências”. Algo interessante!
De acordo com o Capítulo V da Lei 5.700 (01/09/1971), que trata dos símbolos nacionais, durante a execução do Hino Nacional, todos devem tomar atitude de respeito, de pé e em silêncio. Civis do sexo masculino com a cabeça descoberta e os militares em continência, segundo os regulamentos das respectivas corporações. Além disso, é vedada qualquer outra forma de saudação (gestual ou vocal como, por exemplo, aplausos, gritos de ordem ou manifestações ostensivas do gênero, sendo estas desrespeitosas ou não).
Segundo a Seção II da mesma lei, execuções simplesmente instrumentais devem ser tocadas sem repetição e execuções vocais devem sempre apresentar as duas partes do poema cantadas em uníssono. Portanto, em caso de execução instrumental prevista no cerimonial, não se deve acompanhar a execução cantando, deve-se manter, conforme descrito acima, silêncio.
E continuando a lei entramos, claro, as penalidades, olha que interessante:
Art. 35 - A violação de qualquer disposição desta Lei, excluídos os casos previstos no art. 44 do Decreto-lei nº 898, de 29 de setembro de 1969, é considerada contravenção, sujeito o infrator à pena de multa de uma a quatro vezes o maior valor de referência vigente no País, elevada ao dobro nos casos de reincidência (Redação dada pela Lei nº 6.913, de 1981). Seja lá que valor for este deve ser alto...
Art. 36 - O processo das infrações a que alude o artigo anterior obedecerá ao rito previsto para as contravenções penais em geral. (Redação dada pela Lei nº 6.913, de 1981).
Eu não entendo muito de lei, mas imagina, um belo dia, você sai da delegacia, seu pai vai te buscar preocupado e etc, e pergunta qual foi a infração, dai você diz: “Ah, cantei o hino nacional em continência” ou "aplaudi quando acabei de cantar o hino", por exemplo. Ridículo. É bonito a regulamentação etc, algumas disposições, mas, ao meu ver algumas são inúteis.
Sem contar que onde você aprendeu o que está regulamentado nesta lei que:
Art. 39. É obrigatório o ensino do desenho e do significado da Bandeira Nacional, bem como do canto e da interpretação da letra do Hino Nacional em todos os estabelecimentos de ensino, públicos ou particulares, do primeiro e segundo graus.
Além do mais, fugindo um pouco do hino, mas ainda em símbolos nacionais imagina. Você ser autuado por ter uma bandeira suja:
Art. 31. São consideradas manifestações de desrespeito à Bandeira Nacional, e portanto proibidas:
I - Apresentá-la em mau estado de conservação.
Ou ainda:
II - Mudar-lhe a forma, as côres, as proporções, o dístico ou acrescentar-lhe outras inscrições;
Embora quando o Sepultura colocou o símbolo da banda na bandeira houve algumas retaliações, o que ao meu ver foi uma forma de demonstrar o amor ao país etc, foi visto como um desrespeito à pátria. Estranho. O que a bandeira da mesa do congresso representa então? Está limpa e do jeito que deve estar, mas e o que fazem em cima dela? Isto deveria ser visto como um desrespeito.
Bom, deixa pra lá... Mudando de assunto, ainda tem mais, a lei exige que não cantem o hino pessoas fora de ritmo:
Art. 24. A execução do Hino Nacional obedecerá às seguintes prescrições:
III - Far-se-á o canto sempre em uníssono;
Fica a dica pra quem não consegue acompanhar a música. Melhor ficar quieto do que ser julgado por desrespeito à pátria.
Ah, esqueci, se sua bandeira estiver em mau estado de conservação podem ser tomadas de ti para queimá-la:
Art. 32. As Bandeiras em mau estado de conservação devem ser entregues a qualquer Unidade Militar, para que sejam incineradas no Dia da Bandeira, segundo o cerimonial peculiar.
Será que não entregar uma bandeira em mau estado de conservação também terá de pagar multa, o “infrator”?

Enfim... Voltando ao assunto: O Hino Nacional é interessante ele foi escrito inicialmente em 1822 por Francisco Manuel da Silva para comemorar a abdicação de D. Pedro I ao trono, depois a letra foi alterada exaltando D. Pedro II. Depois por divergências militares e políticas e após a proclamação da república fez-se um concurso para escolher o hino, inicialmente o hino de Leopoldo Miguez que havia ganhado foi rejeitado pelo povo e por Marechal Deodoro da Fonseca e acabou sendo oficializada como o hino da proclamação da república e como hino nacional, foi aberto novo concurso em 1906 e em 1909 escolhido a letra de Joaquim Osório Duque Estrada como aquela que melhor se adaptou a música de Francisco Manuel da Silva, a mesma música composta em 1822, originalmente a “Marcha Triunfal” comemorando a independência do país. Em 1916 houve uma alteração, ainda, a letra. Em 1822 doi declarado oficialmente em 1922 e “comprado” os direitos pelo Poder Executivo em 1922. Em 1936 o Deputado Lourenço Baeta Neves declarou obrigatório o canto do Hino Nacional nas escolas.
Bom, historicamente falando o hino representa primeiro a liberdade do Brasil de Portugal, a exaltação de nosso imperador Dom Pedro II e depois um hino de exaltação à pátria, afinal é um hino nacional e não um hino ao imperador. Figuras importantes do hino:
Joaquim Osório Duque Estrada era bacharel em letras e filho do tenente-coronel, Luiz de Azevedo Coutino Duque Estrada. Publicou livros de poesia, didáticos, peças teatrais, traduções, libretos de operas e conferências, foi crítico literário em três jornais importantes da época (Correio da Manhça, Imparcial e Jornal do Brasil). Republicano, dedicou-se à diplomacia, foi nomeado 2º Secretário de Alegação (no Paraguai), foi regente interino da cadeira de História Geradl e do Brasil no Colégio Pedro II. Ocupou a cadeira 17 da ABL.
Francisco Manuel da Silva foi compositor, regente, violoncelista e professor. Compôs em 14 de abril de 1831 o “7 de Abril (hino sobre a abdicação de D Pedro I), que se trasnfornou no primeiro Hino Nacional Brasileiro. Fundou a Sociedade Beneficência Musical, em 1841 foi elteito Mestre Geral da Campela Imperail e em 1842 Mestre Compositor da Capela Imperial. Foi condecorado com a “Ordem Rosa”, como Oficial, em 1857.
Leopoldo Américo Miguez foi compositor, violinista e maestro, wagneriano e republicano.
Marechal Deodoro da Fonseca foi militar e político republicano brasileiro, eleito o primeiro presidente do Brasil de 1889 a 1891, durante o governo provisório.
Dom Pedro I foi o primeiro imperador do Brasil de 1822 a 1831, quando abdicou para seu filho Dom Pedro II. Dom Pedro I foi aquele que disse em 9 de janeiro de 1822 que "Como é para o bem de todos e felicidade geral da nação, estou pronto, diga ao povo que fico!", declarando também que nenhuma ordem das cortes portuguesas seria cumprida no Brasil sem a sua autorização, entrando diretamente em conflito com Portugal o que culminaria na Independência do Brasil à 7 de setembro de 1822, no chamado “Grito do Ipiranga", naquele riozinho ali pra baixo do museu do Ipiranga.
Dom Pedro II filho de Dom Pedro I, 2º Imperador do Brasil de 1831 a 1889, quando foi deposto pelo golpe militar liderado pelo Marechal Deodoro da FOnseca (esse ai em cima) e proclamada a República do Brasil. Dom Pedro II foi um grande incentivador da educação e da cultura, contra a escravidão, sendo considerado "um príncipe filósofo por Lamartine, um neto de Marco Aurélio por Victor Hugo e um homem de ciência por Louis Pasteur e ganhando a admiração de pensadores como Charles Darwin, Richard Wagner, Henry Wadsworth Longfellow e Friedrich Nietzsche".
Bom, o hino nacional é um hino de idolatração à pátria, algo que revele as qualidades do país e de seu povo, deve procovar o patriotismo. Reflete a tradição, a história, os costumes, características do povo etc. Sendo assim é difícil, penso, representar todo o Brasil, no nosso caso, claro!, pois o Brasil é muito grande, cada estado ou região tem sua história, suas características e a história do Brasil após a descoberta foi escrita nas cidades litoraneas, só depois foi adentrando o país e grande parte da história aconteceu em São Paulo/Rio de Janeiro/Minas Gerais. São muitos povos, muitas tradições, muitos costumes, características diferentes, não sei se, de fato, nosso hino é um hino nacional. Apesar que não poderíamos ter mais de um hino, senão seriam hinos regionais, o que seria um contradição, em termos. Na minha opinião não temos um Brasil, mas muitos “brasís” dentro de um só.
Do Hino Nacional discordo de alguns trechos, como:
Se o penhor dessa igualdade
Conseguimos conquistar com braço forte,
Em teu seio, ó Liberdade,
Desafia o nosso peito a própria morte!
Da forma que foi composta diz que a independência, a liberdade, foi conquistada pelo povo com coragem e força, quando na verdade, foi proclamada pelos líderes políticos, pela elite, por questões políticas, pelas pressões sofridas de Portugal. Outra:
Gigante pela própria natureza
A grandeza de um país não lhe é dada por natureza e sim por convenção, pois são os homens que dividem as terras e a delimitam. Ainda outra:
Mas se ergues da justiça a clava forte,
Verás que um filho teu não foge à luta,
Nem teme, quem te adora, a própria morte.
Será mesmo que o brasileiro morreria pela patria? Será que levantaria a clave, ou pelo menos a voz contra a injustiça? Se sim, onde eles estão com tanta coisa errada acontecendo no país e todos estão calados? Se não, esta parte do hino é falsa, mentirosa. Fala de alguém ou que morreu ou que está por vir, pois hoje, não vejo este filho que não foge a luta, nem que morreria pelo país.

De todo modo segue o Hino Nacional:

Hino Nacional Brasileiro
I
Ouviram do Ipiranga as margens plácidas
De um povo heroico o brado retumbante,
E o sol da Liberdade, em raios fúlgidos,
Brilhou no céu da Pátria nesse instante.

Se o penhor dessa igualdade
Conseguimos conquistar com braço forte,
Em teu seio, ó Liberdade,
Desafia o nosso peito a própria morte!

Ó Pátria amada,
Idolatrada,
Salve! Salve!

Brasil, um sonho intenso, um raio vívido,
De amor e de esperança à terra desce,
Se em teu formoso céu, risonho e límpido,
A imagem do Cruzeiro resplandece.

Gigante pela própria natureza,
És belo, és forte, impávido colosso,
E o teu futuro espelha essa grandeza.

Terra adorada
Entre outras mil
És tu, Brasil,
Ó Pátria amada!

Dos filhos deste solo
És mãe gentil,
Pátria amada,
Brasil!
II
Deitado eternamente em berço esplêndido,
Ao som do mar e à luz do céu profundo,
Fulguras, ó Brasil, florão da América,
Iluminado ao sol do Novo Mundo!

Do que a terra mais garrida
Teus risonhos, lindos campos têm mais flores,
"Nossos bosques têm mais vida",
"Nossa vida" no teu seio "mais amores".

Ó Pátria amada,
Idolatrada,
Salve! Salve!

Brasil, de amor eterno seja símbolo
O lábaro que ostentas estrelado,
E diga o verde-louro dessa flâmula
- Paz no futuro e glória no passado.

Mas se ergues da justiça a clava forte,
Verás que um filho teu não foge à luta,
Nem teme, quem te adora, a própria morte.

Terra adorada
Entre outras mil
És tu, Brasil,
Ó Pátria amada!

Dos filhos deste solo
És mãe gentil,
Pátria amada,
Brasil!
• Trecho sublinhado extraído por Duque-Estrada do poema Canção do Exílio de Gonçalves Dias. O poema foi escrito na época em que GD foi para Portugal estudar Direito, em 1843. Na época estava em voga o Romantismo, em sua primeira fase. No Brasil marcada pelo indianismo e pelo nacionalismo. GD junto com Gonçalves de Magalhães foram os principais poetas e as características principais do movimento são nacionalismo, exaltação do país e da natureza, o índio é o herói nacional e estão há duas décadas da independência, o que (in)diretamente é causa das outras características. Poderíamos ainda traíamos ainda ler alguns outros poemas que tratam do mesmo assunto de como alguns poemas de Drummond, Vinicius de Morais, , Casimiro de Abreu dentre outros, porém não vou me estender mais... Segue o poema Canção do Exílio para finalizarmos:

"Minha terra tem palmeiras,
Onde canta o Sabiá;
As aves que aqui gorjeiam,
Não gorjeiam como lá.

Nosso céu tem mais estrelas,
Nossas várzeas têm mais flores,
Nossos bosques têm mais vida,
Nossa vida mais amores.

Em cismar, sozinho, à noite,
Mais prazer encontro eu lá;
Minha terra tem palmeiras,
Onde canta o Sabiá.

Minha terra tem primores,
Que tais não encontro eu cá;
Em cismar - sozinho, à noite -
Mais prazer encontro eu lá;
Minha terra tem palmeiras,
Onde canta o Sabiá.

Não permita Deus que eu morra,
Sem que eu volte para lá;
Sem que desfrute os primores
Que não encontro por cá;
Sem qu'inda aviste as palmeiras,
Onde canta o Sabiá."

quarta-feira, 26 de janeiro de 2011

Despedida, e Recomeço...

Semana passada pedi as contas do trabalho (...) Depois que pedi as contas comecei a pensar no que falaria nos 'clássicos' e-mails de despedida, escrevi algumas versões, mas decidi não enviar nenhuma delas, ainda estou cumprindo aviso, não escrevi ainda o e-mail, mas vou publicar aqui o que decidi não enviar lá...

Versão 1


O que aprendi aqui?!...
Aprendi que na vida conheceremos pessoas fantásticas que nos “apaixonaremos”, pelo seu jeito, por ter uma educação e conhecimento fora do comum, por nos ensinarmos com suas ações tudo o que precisamos saber para enfrentar situações difíceis, para amadurecer, saber o que dizer, como dizer, como fazer, o que fazer, tudo na hora e do jeito certo. Na vida conhecemos mestres.
Aprendi na vida, também, que os mestres vão embora...
Aprendi que quando você quer, você faz, mas não é só isso que nos impulsiona, estamos sempre aprendendo, precisamos de orientação e precisamos de motivação para continuarmos fazendo. O ser humano também é movido por reconhecimento, e quando se trabalha no meio de pessoas o feedback de como está seu desenvolvimento é fundamental.
Aprendi que quem faz pra quem finge que acompanha é quem grita mais alto.
Aprendi que mudanças são positivas se forem focadas, se tiverem um rumo, um porquê, um objetivo. Mudar por mudar, sem planejamento ou acompanhamento gera insegurança, pois lideres são diferentes, as pessoas são diferentes, os modos de viver são diferentes e não é possível orientar e acompanhar se estamos a cada segundo mudando de uma forma à outra e voltando e indo novamente. Precisamos ter um pilastra central para nos sustentarmos.
Aprendi que fazer não é o bastante, você precisa mostrar o que fez, não há reconhecimento sem apresentação, sem se mostrar, sem saber vender-se. Importante é saber fazer tudo isso eticamente.
Aprendi que educação não está só no modo de como falar ou tratando gentilmente as pessoas, há falta de respeito e educação em várias atitudes gentis. Pedir desculpas não muda o que passou, não altera os fatos, não retira o que ficou preenchido em nosso coração. Pequenas atitudes como atrasar-se é um sinal de falta de respeito com o próximo.
Aprendi que quem quer fazer a coisa certa geralmente se dá mal, sofre mais, sangra mais, mas fundamental é estar com a consciência limpa de que em todas as suas ações foi-se ético, civilizado, foi-se humano.
Aprendi que quem sangra aprende mais e cresce mais. Comodidade é atraso de vida, é ficar pregado sempre no mesmo lugar. Geralmente o que é fácil demais não nos acrescenta nada e vida é desenvolvimento, é movimento.
Aprendi que há pessoas que marcam e há pessoas que por mais que conviva com ela sempre esquece-se que ela exista, alguns não nos marcam por sua insignificância. Aprendi que temos que conviver com quem amamos e com quem odiamos e com ambos termos a mesma postura.
Aprendi que mesmo com razão quem perde o controle está errado.
Aprendi que não há muita justiça na vida...
Aprendi que simpatia traz muitas pessoas pra perto e que profissionalismo no meio da simpatia alheia afasta as pessoas, o profissional, o homem da cartilha é taxado de chato, bajulador dentre outros.
Aprendi que nada está bom, as pessoas sempre esperam mais de você, muitas vezes elas não dão o suficiente delas, ou não dão tanto quanto cobram.
Aprendi que sempre alguém falará mal do que você faz por inveja ou incapacidade, alguém sempre tentará te diminuir na frente dos outros ou tentará se diminuir para você o elevar ou mostrar suas fraquezas, Nietzsche uma vez corrigindo a passagem bíblica (“Quem rebaixa aos outros, quer elevar-se a si mesmo”), diz que “Quem rebaixa a si mesmo quer ser elevado”.
Aprendi que devemos ser mais racionais do que emotivos, a emoção nos guia por caminhos tortuosos e sofremos mais do que devemos, a paixão nos leva a loucura.
[incompleto]


Versão 2

Tudo na vida a seu tempo. Tudo na vida tem seu tempo. O homem é um animal desejante, pensando, um ser que sonha... E por sonhar queremos sempre mais, melhor.
O homem sabendo ou não sofre de desespero, desespero pelo ‘eu’, desespero pelo desejar e pelo conseguir. Estamos sempre querendo algo e sempre que conseguimos uma coisa queremos outra nova, diferente. Estamos sempre nos buscamos - mas facilmente perdemos a nós mesmos -, sempre querendo ser algo, ser alguém, possuir algo ou alguém, como se isto fosse uma parte perdida de nós mesmos. Em todos os lugares procuramos identidade. Este é o motivo do seu desespero.
A causa deste mal é, também, o que nos faz grandiosos: imaginamos sempre outros meios e modos de como conquistar algo. Os homens precisam elevar-se, tudo pra ele tem seu tempo, quando não há mudanças, logo vem o cansaço, a insatisfação, a tristeza...
Alguns resignam com as injustiças e os males, outros lutam, outros pacificamente tentam mudar a situação recorrendo aos superiores, que podem intervir ao que está sendo feito de errado, porém se nada é feito estes abandonam o barco e vão em busca de outro navio, outra tripulação, as vezes até outros portos ou mares. Aos que se resignam, acabam aceitando e praticamente (voluntariamente ou não) as mesmas ações injustas; aos que lutam não guardam rancor ou tristezas, pois estão ativamente se opondo, resistindo e fazendo de tudo para mudar a situação; aos que tentam resolver politicamente há o rancor, pois nem sempre há o desejo da mudança, ou a intenção, ou apenas a boa-vontade em ajudar, estes são os que partem, não encontrando apoio nem pegando em armas, preferem abandonar a situação a sofrerem calados.
Mudança e desejo é o que nos move, amor e ódio, coragem e indignação, guerra e paz...
Importante é não resignar-se, não abandonar-se, não trair-se, não tomar do mesmo veneno dos demais, não se juntar aos trapos, aos ladrões, aos baderneiros, aos preguiçosos, aos invejosos, aos insolentes...
Importante é querer mudar, querer evoluir, querer ir adiante, ultrapassar...
Importante é além do desejo a ação, desde que haja virtude e honra nestas ações, não é pegando em armas ou armando contra outras pessoas, mas com as palavras que mudamos nossos caminhos, que moldamos pessoas, que as formamos, que discutimos, através delas são feitos acordos...
Importante também é não se apegar, pois tudo é passageiro, tudo muda, tudo é volátil, passageiro...
Seja sincera consigo próprio e lute pelo o que acredita, tenha valores, saiba julgar e ser justo, tenha argumentos para se defender e se impor. Leve a vida o mais tranquilamente possível, a felicidade é um estado de espírito, algo que se alcança, não que se compre ou se ganhe.

segunda-feira, 17 de janeiro de 2011

Eterno Retorno

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E se um dia ou uma noite um demônio se esgueirasse em tua mais solitária solidão e te dissesse:

"Esta vida, assim como tu vives agora e como a viveste, terás de vivê-la ainda uma vez e ainda inúmeras vezes: e não haverá nela nada de novo, cada dor e cada prazer e cada pensamento e suspiro e tudo o que há de indivisivelmente pequeno e de grande em tua vida há de te retornar, e tudo na mesma ordem e sequência - e do mesmo modo esta aranha e este luar entre as árvores, e do mesmo modo este instante e eu próprio. A eterna ampulheta da existência será sempre virada outra vez - e tu com ela, poeirinha da poeira!".

Não te lançarias ao chão e rangerias os dentes e amaldiçoarias o demônio que te falasses assim? Ou viveste alguma vez um instante descomunal, em que lhe responderías:

"Tu és um deus e nunca ouvi nada mais divino!"

Se esse pensamento adquirisse poder sobre ti, assim como tu és, ele te transformaria e talvez te triturasse: a pergunta diante de tudo e de cada coisa:

"Quero isto ainda uma vez e inúmeras vezes?"

pesaria como o mais pesado dos pesos sobre o teu agir! Ou, então, como terias de ficar de bem contigo e mesmo com a vida, para não desejar nada mais do que essa última, eterna confirmação e chancela?

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Friedrich Nietzsche, "Eterno Retorno", A Gaia Ciência

domingo, 2 de janeiro de 2011

Ano Novo...

31 de dezembro, último dia do ano para quase todo mundo, bom, para todos os países que seguem o calendário cristão hoje é o último dia, amanhã um novo dia, um novo ano, uma nova esperança, um novo sonho, uma nova vida...
Época em que avaliamos nosso ano, colocamos tudo na balança, vemos o que resultou positivamente e o que não deu certo, o que conquistamos e o que perdemos, e iniciamos novos planos para o novo ano que se segue.
O tempo se olhado no calendário parece fechado, com começo, meio e fim e depois de 365 dias se renova, o calendário nos dá esta ilusão proveitosa, o tempo não acaba, ele continua eternamente, o calendário é uma forma de prender o tempo, querer segurá-lo no presente, mesmo que esteja num passado distante. E tentamos prendê-lo o tempo todo, com fotos, registros, guardando documentos, papéis etc.
O tempo passa o tempo todo, todo tempo passado faz parte de nossa história e nada pode mudá-lo, a vida toda é feita de impressões que nunca são esquecidas, nunca podem ser alteradas, nosso passado está enterrado sob a pedra da vida, uma pedra imensa, um fardo pesado, porém invisível. Quando não temos ciência de que tudo o que fazemos volta-se contra nós no tempo, no futuro, perdemos vida. O Destino é implacável, não tem dó, não perdoa nada, nada passa despercebido, nada se esquece, nada se muda, tudo permanecerá eternamente qual foi, exatamente em cada milésimo de segundo, cada sensação, cada riso e cada dor. Ao Destino e ao Tempo não engana-se.
Passamos a vida, porém, contando com a Sorte, que escolhe a dedo a felicidade ou o infortúnio, mas à Sorte podemos escapar; quando navegamos sem conhecer o mar, as ondas, e as correntezas, ficamos a mercê do seu agrado. Nossa vida não é diferente, quando não fazemos nada de nossas vidas, ficamos a mercê da vida, do Destino e do Tempo, até que um dia nosso tempo acabe e nossas vidas serão tão inúteis que passarão despercebidas por todos. Temos que tomar as rédeas de nossas vidas e viver tendo em mente que a vida tal qual nós a estamos vivendo, se a tivéssemos que vivê-la eternamente, em cada segundo, cada dor, cada riso, cada esperança e cada conquista, se nada fosse alterado, se nada, por mais insignificante que seja pudesse ser alterado o mínimo possível, como veríamos nossa vida? Nos orgulharíamos de nós mesmos ou nos amaldiçoaríamos? Assistiríamos o filme da nossa vida como o filme de um herói ou como uma tragédia? Ou pior, uma comédia?
Cada dia construir algo para além de nós, conhecer, crescer, acrescentar, fortalecer, ir além... Estes devem ser nossos ideais norteadores. A certeza que não desperdiçamos o tempo, não passar mais tempo buscando coisas perdidas, olhar sempre afrente, não fugir ao Tempo nem ao Destino, amaldiçoar nossa Sorte, pois esta é uma desculpa dos fracos, dos que não tem força nem coragem, muito menos sinceridade em assumir nada. Deixar sua vida ser guiada por qualquer vento que soprar mais forte é estar perdido dentro da própria vida, se lançar ao mar com uma canoa sem remo.